A Bateu Castelo cobriu a edição 2011 do festival No Ar Coquetel Molotov e registrou todas as bandas que passaram pelo Centro de Convenções da UFPE nos dias 14 e 15 de outubro. São performances memoráveis de Racionais MCs, Lobão, HEALTH, Guillemots, Hindi Zahra, The Sea and Cake, Rômulo Fróes, China, Copacabana Club, Maquinado, Trio Eterno, Rodrigo Brandão & M. Takara, Beans, Nuda, King Size e Rua.
Há pelo menos um vídeo de cada banda (algumas tem dois) e um minidocumentário de treze minutos com entrevistas e cenas dos shows, que surpreende não apenas pela beleza das imagens, mas pela abordagem um tanto inesperada. Longe de realizar apenas um registro, a produtora focou na impressão que os artistas têm do Coquetel Molotov, posicionando-os também como público do festival. Entendemos, assim, a relação de algumas bandas com a cidade, o festival e o teatro, sabendo também o que esses músicos curtem e os shows que os levariam do palco à poltrona. Um passo histórico para o No Ar Coquetel Molotov, que completa oito anos sempre andando pra frente.
“Ser artista, hoje, é fundir linguagens e andar entre as fronteiras das artes de uma maneira livre.” (Vinicius Calderoni)
O tempo em que um artista concentrava-se apenas em criar e contava com uma indústria como ponte entre a arte e o público já acabou faz tempo. Há, no caso dos músicos, quem goze ainda da estrutura de uma grande gravadora, mas cada vez mais esse caminho parece distante. O momento é de contato direto, de perfis no myspace, facebook, twitter e blogs que permitem a comunicação entre o consumidor e o criador. Ao mesmo tempo que estas plataformas abrem espaço e possibilidades infinitas para qualquer um se lançar no mercado, a fronteira entre o efêmero e o duradouro fica mais e mais tênue. Tem tanta coisa disponível que fica difícil se destacar apenas pela qualidade. É necessário algo a mais e Os 12 Clipes de Tranchã, de Vinicius Calderoni, é exatamente isto.
Após o lançamento de seu disco de estreia, Tranchã, em 2007, Calderoni iniciou os preparativos do projeto, que levaria quase três anos para tornar-se realidade. Treze jovens diretores, dentre os quais o próprio Vinicius, dirigiram clipes para as doze músicas do álbum. O resultado foi uma mistura heterogênea de animação, ficção, videoarte, registros documentais, performances ao vivo e mais. Alguns são melhores que outros, o que é inevitável e natural, mas a força do projeto vem do conjunto. Não existe um clipe de Tranchã que roube a cena, existem doze.
Mas o projeto não se resume aos clipes e definitivamente não para por aí. 40 vídeos foram produzidos, incluindo teasers e depoimentos dos diretores, explicando como cada vídeo foi feito e o porquê. O material foi sendo liberado aos poucos na internet e ao final de fevereiro do ano passado, os clipes foram divulgados, não apenas em seu canal do YouTube, mas em um site completíssimo e repleto de informações. O próximo passo foi uma série de shows durante o mês de março, na Vila Madalena, em São Paulo. Infelizmente não dá para ter uma ideia exata do rolou no prometido espetáculo multimídia, pois este vídeo mostra pouco, mas deve ter sido uma experiência bastante interessante. O cenário e as projeções, recriadas utilizando imagens dos clipes, certamente foram.
Ao fim de tudo, quase esquecemos um detalhe importante, que, às vezes, fica em segundo plano num projeto desse porte: a música é realmente boa, do tipo que não deveria precisar de nada disso para ter destaque. Mas os tempos são outros e, no fim das contas, temos é de agradecer por alguns ainda conseguirem subverter a correria e o excesso de informação em criatividade.
Depois do sucesso astronômico em visualizações no Youtube (isso é que é ROI em social media), a toda-poderosa nova sensação da música pop Lana Del Rey começa a causar comoção na imprensa, todos impressionados pela aura de mistério e novidade ao redor da cantora. Primeiro, o básico: sua declaração sobre ser apenas fruto de uma estratégia de advogados e executivos da indústria fonográfica, um produto pronto para o consumo em massa, já fez muita gente entortar o nariz para a pobre nova-iorquina rica. Declaração essa, por sinal, que nem sei se posso confiar 100% – todos falam, ninguém cita a fonte.
O fato é que essa história de ser uma artista fabricada não me incomoda em nada. Vamos combinar que nem todo cantor, especialmente em começo de carreira, consegue aliar técnica, originalidade e visão de mercado. Vamos combinar também que é impossível viver apenas de apoteoses da música popular contemporânea, seria entediante.
Partindo desse pressuposto, exponho aqui minha opinião sobre a famigerada Lana, baseado em seus primeiros hits. “Video Games” abriu as portas do estrelato para a mocinha, mas, não sei se por estar acostumado a Gaguismos extravagantes e vibratos Adelísticos, achei meio chata. É, não achei adjetivo melhor. Para mim, é aquele tipo de música que você escuta de fundo quando vai procurar móveis na Tok & Stok. Tudo bem que minha opinião muda mais que os penteados da Rihanna, mas, por enquanto, não curti.
Já em “Blue Jeans” (eu sei que você também lembrou do hit da nossa diva Angélica) acho que Lana conseguiu expressar melhor sua identidade. O clipe ajuda bastante a construir o discurso hype retrô e a música é do tipo que dá vontade de cantar junto com os amigos.
Há ainda mais um aspecto sobre a persona Del Rey cuja relevância há de ser registrada, a caracterização. Nesse ponto, caros leitores, Lana (e seus agentes, produtores, advogados, secretários) acertou em cheio. Do penteado clássico aos lábios estufados de botox, passando pelas roupas escolhidas com muito bom gosto, Lana consegue a imagem de diva tão importante para sua expressão artística, tanto em termos de criatividade quanto de apelo comercial. Por sinal, até mesmo seu nome foi escolhido estrategicamente para retomar o glamour da alta sociedade hollywoodiana.
Em tempo: como todo mundo tem um passado negro, a hype das hypes já lançou um álbum em 2009, um fracasso de vendas, sob a alcunha de Lizzy Grant, seu nome verdadeiro. O que vai ter de hipster ovacionando essas primeiras gravações como raridade não vai ser brincadeira.
Por fim, gostando ou não gostando da voz suave de Lana Del Rey, já deu para sentir que ela veio para ficar.
Começo esse novo ciclo de entrevistas, com o tema “João Gilberto”, com meu amigo Raul Luna. Quando o conheci, ele ainda trabalhava com vídeo – na época fizemos a marca da sua Trincheira Filmes, que tinha com Leonardo Lacca, Marcelo Lordello e Tião. Apesar de ter estudado arquitetura, Raul é um multi artista, ele já fez filmes, video arte e decidiu seguir o caminho do design gráfico. Hoje, é um dos melhores designers que conheço e, na sua última exposição, LAVA, trabalha a fronteira entre design e arte.
Raul Luna na web http://cargocollective.com/raulluna http://vimeo.com/user2580411 http://twitter.com/#!/penguinfromhell
1- Se você pudesse voltar no tempo, voltaria para que ano? Sou um cara obcecado por música, gosto muito do Stereolab e uma das maiores frustrações da minha vida foi nunca ter visto ao vivo. Adoraria ter ido ao Free Jazz em 1999, quando vieram na turnê do Cobra. Os caras tavam numa das melhores fases da banda, super experimentais… Acabei compensando no ano passado, quando tive oportunidade de jantar com a Laetitia, conversar sobre o que era a banda vendo do lado de dentro, foi incrível. Mas queria muito ter ouvido The Flower Called Nowhere e Fluorescences ao vivo.
2- O que te traz boa sorte? Aceitar o acaso, principalmente artisticamente. Um processo de trabalho intuitivo mais experimental funciona muito comigo. O LAVA foi um projeto conceitualmente baseado nessa forma de trabalho. Tento também ficar sempre ligado pro botão da auto-sabotagem não ficar no mode ON e tentar ser honesto pro que eu quero pra mim.
3- Uma obra artística que marcou você? (Um filme, livro, etc…) Pra pensar em um, acho que o SMLXL do Rem Koolhaas. É um livro gigantesco, 1500 páginas, que relatou boa parte do processo de produção dos projetos dele, misturando muita coisa diferente num mesmo volume. Graficamente é muito instigante, rola um trabalho bom de tipografia. Tive um primeiro contato com esse livro em 2004/2005, quando trabalhava majoritariamente com video e foi o start da vontade de trabalhar com print.
Cremaster, do Matthew Barney, foi outro trabalho que também mudou a minha cabeça completamente.
4- Esquerda, direita ou centro? Esquerda, sempre.
5- O que faz você manter uma amizade e acabar uma amizade? Pra mim, amizade é give and take, sempre. Se voce faz mais pelo outro do que ele por você, tem algo errado. Principalmente quando envolve pressão, egoísmo e cobrança alheia, aí é que termina mesmo.
João Gilberto por Raul Luna
6- Algo a dizer sobre “João Gilberto”? Todo mundo que curte música tem um respeito grande por ele. O cara criou a Bossa Nova, não é pouca coisa. Mas acho que ele devia estar gravando mais, sair desse safety-zone de gênio e aproveitar melhor o tempo criativo dele. Hoje pra mim João Gilberto é um misto de deus e monstro.
7- Quem você indica para ser o próximo entrevistado? Domenico Lancelotti. Ele parece ser um cara muito intuitivo com toda a coisa de fazer música, tem um feeling muito honesto, além de ser um grande chef na cozinha. O último disco dele é muito bom, na minha opinião até melhor do que o anterior, Sincerely Hot. Acho que daria uma puta entrevista.
Neste fim de semana começa mais uma edição do No Ar Coquetel Molotov, festival criado em 2004 por Ana Garcia, Tathianna Nunes, Jarmeson de Lima, Viviane Menezes e Thiago Marinho. Ao longo desses oito anos, o coletivo, agora sem Vivi e Thiago, transformou o gosto musical da nossa cidade, tornando-se o grande responsável por muito do que ouço e, provavelmente, do que você ouve também.
Foram muitos os shows inesquecíveis e na expectativa de outros tantos, deixo aqui minha homenagem ao festival com uma mixtape especial, revisitando sua história com bandas de todas as edições e trazendo um pouco do que vai rolar este ano. Pode ir entrando no clima, porque a sexta-feira já está chegando.
MIXTAPE #6
1. No Wow (The Kills)
2. Young Folks (Peter Bjorn and John)
3. Who Left The Lights Off, Baby? (Guillemots)
4. Crua (Otto)
5. Animal (Miike Snow)
6. Divine (Sebastien Tellier)
7. Airport Surroundings (Loney, Dear)
8. Noah’s Ark (CocoRosie)
9. Fascination (Hindi Zahra)
10. Minha Neguinha (Cibelle)
11. I Melt With You (Nouvelle Vague)
12. I Can’t Believe It’s Not Love (Hello Saferide)
13. Elephant Gun (Beirut)
14. Janta (Marcelo Camelo & Mallu Magalhães)
15. Your Love Is The Place Where I Come From (Teenage Fanclub)
16. Clube da Esquina Nº 2 (Milton Nascimento & Lô Borges)
17. Hitten (Those Dancing Days)
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