
João Arraes começou a fotografar profissionalmente aos 16 anos, mas essa paixão vem desde a infância, tanto que quase nunca está presente nos álbuns de família — está sempre por trás das lentes. Ainda antes dessa veio outra paixão maior: a moda. Comprando revistas e lendo escondido em casa, sempre opinava nas roupas da mãe e da irmã. Juntar os dois mundos foi natural e hoje João é fotógrafo de moda, e que fotógrafo! Com apenas 21 anos e ainda na faculdade, suas fotos já chamam atenção não só no Recife, mas em São Paulo e até fora do Brasil. Acompanho seu trabalho de longe há algum tempo e fiquei impressionado com a rápida evolução e o nível que ele atingiu em tão pouco tempo. Seu potencial é absurdo.
Recentemente tivemos o prazer de desenvolver um trabalho juntos e aproveitei uma de suas visitas à mooz para uma conversa bacana sobre sua carreira, objetivos e o mercado de moda do Recife.




Como e quando você percebeu que queria ser fotógrafo de moda?
Eu morei na Califórnia e tinha fotografia na grade da High School. Me identifiquei muito com o curso e fui escolhido pelo professor pra ser seu assistente em fotografia publicitária. Eu tava gostando daquilo, mas fui percebendo que tinha facilidade em fotografar pessoas. Foi quando tive que apresentar o primeiro projeto fotográfico, que seria uma foto simples, tipo atividade de sala de aula, que eu super produzi e acabou virando um editorial. Referências de moda já tinha há um tempo e quis trabalhar isso. Quando cheguei em Recife, já fui dizendo “oi pai, oi mãe, vou ser fotógrafo de moda”.
E como é sua relação com a moda?
Eu respiro moda. Leio mais blogs e revistas de moda do que de fotografia. Minha referência é moda. Não tenho a câmera mais moderna de última tecnologia, nem a versão que acabou de sair do Photoshop, mas sei o que a Chanel desfilou, sei quem foi o maquiador e sei fazer a maquiagem. Eu sou muito mais moda que fotografia, é o ar que eu respiro.




Recentemente você acompanhou Melk Z-Da e não foi só fotografia. Como foi isso?
Eu tenho uma relação pessoal com Melk. A ideia era ajudar a criar a identidade da mulher dele. Ele fazia o look e eu dava minhas opiniãoes. Esse foi o objetivo central de eu estar lá, mas como me envolvo muito com moda, costurei, bordei, fiz os sapatos, ajudei nas provas de roupa. Fiz de tudo um pouco.
Você pensa em expandir seu trabalho para outras áreas?
Eu penso em expandir, mas não agora. Quero ainda estudar e me especializar cada vez mais em moda. Mas pretendo fazer direção de fotografia em filme e até documentários de fotografia. Quero levar essa linguagem de moda para outros lugares, fazer filmes só com modelos, deixar o figurinho sempre em evidência. Enfim, pegar a linguagem que já tenho na fotografia e aplicar em outras áreas.
Tem um trabalho autoral muito bacana que vem sendo mostrado no seu blog e que não é moda. Qual o objetivo do Photography is for Lovers?
Como eu disse, quero levar minha fotografia de moda a outras áreas. No blog eu quero fugir do clichê. São pessoas lindas que não são o esterótipo de beleza e por isso não aparecem tanto. Inclusive, o sobrenome Arraes também carrega esterótipos e costumo brincar que no blog sou só João. Não é o profissional João Arraes.




Qual é a maior dificuldade de trabalhar com moda no Recife, que ainda é, ou parece ser, bastante limitado nesse mercado?
A maior dificuldade, por incrível que pareça, são os próprios clientes, por serem limitados e estarem num mercado ainda meio desacreditado — não em relação a consumo, pois graças a Deus tem se consumido cada vez mais produtos daqui. Eles têm medo de investir: não querem gastar dinheiro porque o retorno é demorado. Clientes não entendem que uma única foto pode vender todo o conceito de uma coleção. Eles preferem superlotar uma foto de informação — par de brincos, o sapato, tudo — para vender aqueles tais itens, e não os valores da marca. Essa cabeça limitada é o maior problema que a gente enfrenta aqui em Recife.



Para fazer um editorial de moda, você trabalha com muitos profissionais que são responsáveis também pelo resultado final. Dá pra fazer um bom trabalho sem um bom maquiador, figurinista ou modelo?
Impossível. Você consegue fazer um ensaio incrível de fotografia documental sem isso, mas em moda, cinquenta por cento é produção. Você tem que conseguir uma luz legal, ter suas referências de moda, mas produção é fundamental num editorial. Você consegue fazer uma foto fantástica com uma modelo nua, mas aí já precisa da modelo. Aquele fotógrafo que diz “eu sou incrível, eu arraso, sou produtor, maquiador e fotógrafo” não existe. É muito mais a equipe e tudo que está por trás que vai resultar numa boa foto. Não me vejo hoje sem minha equipe, sem um stylist bom, sem uma modelo boa.
Quando te contratam, já levam toda a equipe?
Quando um cliente vem me procurar, eu já venho com todos os profissionais que eu gosto de trabalhar. Porque para fazer com pessoas que não vão ajudar no meu trabalho, prefiro nem fazer.
E quanto disso é pós-produção? Hoje em dia tem quase sempre um tratamento muito pesado em todas as fotos.
Eu mesmo gosto de tratar minhas imagens. Por mais novinho que eu seja, sou da época do filme. Comecei a fotografar assim e não gosto dessas peles que de tanto Photoshop parecem Barbies e modelos que são estereótipos de beleza. Eu gosto de trabalhar com o real. Meu Photoshop é básico, não pela técnica, mas porque evito. O que mais faço é mexer em cor, adicionar grãos, sempre tentando buscar a estética do filme. Eu só não trato minhas imagens quando é um trabalho muito comercial, que tem um volume muito grande. Mas prefiro tratar sempre que posso para buscar minha linguagem de uma mulher real, que hoje em dia parece estar sumindo.


Que fotógrafos são referência para você e por que?
Eu adoro o Richard Avedon, pela simplicidade e por fazer fotos atemporais. Tem fotos de mil novecentos e pouco que parecem fotos tiradas ontem. Tem Annie Leibovitz, que é hoje uma das mais incríveis pela identidade que tem. Quando você olha uma foto de Annie Leibovitz, sabe que é dela, não por serem todas iguais, mas por terem identidade. Gosto muito de Helmut Newton, porque ele sempre pega as mulheres como objeto sexual. Acho o trabalho dele fantástico. Tem foto de um cara levando a mulher pra passear, como cachorra, pelada na rua. Gosto dessa pegada de fetiche. E gosto do Terry Richard pela despretenção das fotos dele. São sempre bem divertidas e não aparentam ter super produções, mas têm.
Se pudesse escolher, quem você gostaria de fotografar?
Nunca parei para pensar em qual modelo eu gostaria de fotografar. Claro que todo fotógrafo quer trabalhar com as grandes modelos. Quem não iria querer trabalhar com Kate Moss? Mas ainda estou dando um passo de cada vez. Graças a Deus consegui fotografar Emanuela de Paula, que é uma Angel da Victoria’s Secret. Foi uma grande conquista pra mim. Mas se for pra viajar em quem eu gostaria muito de fotografar, com certeza seria a Kate Moss. Adoro o trabalho dela.
E qual seria o projeto dos sonhos?
Gosto muito das campanhas de John Galliano, Vivienne Westwood e Marc Jacobs. São minhas referências de moda. Quero muito um dia fazer uma campanha de Marc Jacobs, justamente pelo minimalismo que ele tem, por procurar parecer filme, mesmo sendo digital. É a linguagem que eu procuro.




Onde você espera estar daqui a um ano?
Meu próximo passo é ir pra São Paulo. Prefiro dar um de cada vez do que dar dois e voltar. Daqui a um ano ainda vou estar aqui, mas o objetivo é ir pra São Paulo e depois Nova York. Já recebi propostas de agências de Nova York que me chamaram para ser assistente porque gostaram do meu portifólio, mas acho que ainda é cedo demais. Se em São Paulo a concorrência já é foda, imagina em Nova York. Ainda tenho muito o que aprender. Gosto do meu trabalho pelo que estou construindo, mas ainda não é suficiente para estar me expondo por lá.



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www.joaoarraes.com
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