Menina que fala com gato, pinguins que dançam balé, homem azeitona, robô emotivo, vaca crítica de cinema. Este e outros tipos compõem o universo despretensioso de Macanudo, a série de gibis do Ricardo Siri, mais conhecido como Liniers. A quantidade de personagens parece não ter fim, mas alguns aparecem mais que outros, a exemplo da menina Enriqueta com o ursinho de pelúcia e seu gato Fellini. Tem também os pinguins, ah, os pinguins… Acho que estes caras são os protagonistas das melhores piadas (é assim que o Liniers gosta de se referir ao que faz!).
O humor das tiras do Liniers fazem carícias em nosso pensamento. É um humor crítico, por vezes negro, tem o nonsense de um sonho, mas é sempre leve e parece agradar a todas as idades. Lendo o gibi junto a meu filho de 8 anos vi como algumas piadas que eu achava que não funcionam para a idade dele também tem seu lado engraçado.
No auge da empolgação da leitura gritei que “Calvin e Haroldo já era”! He he, pode ser um tanto de exagero mas a comparação não pode deixar de ser feita. A Mafalda do conterrâneo Quino também teve seu império abalado. (O Liniers é adimirador desses dois autores e ambos são citados claramente ou subliminarmente nas tiras) O Liniers começou seu Macanudo em 2002 no auge da crise econômica argentina. Disseram por aí que nada melhor para o humor do que tempos de crise, e isso se confirma mais uma vez. A crise argentina continua até hoje e o sucesso do Macanudo só vem aumentando. É como se o sofrimento dos hermanos fosse o combustível para o Liniers continuar provocando nosso riso. Puxa, puxa… Que a Argentina saia de seu cadafalso mas que o Liniers continue encontrando motivações para nos fazer rir.
Macanudo é publicado no Brasil pela Zarabatana Books, de Campinas, SP, uma editora que teve a feliz idéia se virar de frente para nosso país vizinho e trazer o que de bom é produzido ali. E olha que a Argentina tem uma tradição de quadrinhos e artes gráficas invejável. Que venha material da Fierro, Fontanarossa, Breccias e outros. A Zarabatana editou até o volume 3, mas a série Macanudo na Argentina já chegou ao número 7. Na sexta edição, o autor, num surto de loucura e generosidade, desenhou à mão todas as capas de uma tiragem de 5.000 gibis.
Mais Liniers na web aqui, aqui e aqui. Aqui tem o trailer de um filme sobre ele.
Nem sempre solidão tem a ver com estar sozinho. É muito provável que alguns de seus momentos mais solitários tenham sido na companhia de muitos amigos e familiares. Mas acredito que quando se aceita a solidão, quando se consegue estar em paz contando apenas consigo mesmo, estar sozinho torna-se fácil e prazeroso.
A única vez em que experimentei ficar realmente só foi quando morei na Europa. No início foi muito estranho passar 24 horas do dia sem dizer uma palavra, sem ter ninguém para mostrar algo na rua ou dividir pensamentos, mas aos poucos foi se tornando uma experiência deliciosa e tenho certeza que eu não teria sentido e vivido as mesmas coisas se tivesse companhia. Mesmo adorando esses momentos, uma vez reinserido no meu ambiente natural, essa solidão tornou-se novamente algo a se evitar. É difícil ser um só no meio de tantos.
É nessa busca da paz com a solidão e com estar só que a poeta e cantora Tany Davis escreveu How To Be Alone, transformado depois em um belíssimo e emocionante vídeo pela diretora Andrea Dorfman. A performance de Davis, também responsável pela trilha do filme, foi registrada por Dorfman, que além de dirigir, filmou, editou e animou à mão. Assista com calma e, de preferência, sozinho.
Infelizmente não existe uma versão com legendas em português, mas, se você perdeu algo, leia abaixo a transcrição do poema.
HOW TO BE ALONE by Tanya Davis
If you are at first lonely, be patient. If you’ve not been alone much, or if when you were, you weren’t okay with it, then just wait. You’ll find it’s fine to be alone once you’re embracing it.
We could start with the acceptable places, the bathroom, the coffee shop, the library. Where you can stall and read the paper, where you can get your caffeine fix and sit and stay there. Where you can browse the stacks and smell the books. You’re not supposed to talk much anyway so it’s safe there.
There’s also the gym. If you’re shy you could hang out with yourself in mirrors, you could put headphones in.
And there’s public transportation, because we all gotta go places.
And there’s prayer and meditation. No one will think less if you’re hanging with your breath seeking peace and salvation.
Start simple. Things you may have previously avoided based on your avoid being alone principals.
The lunch counter. Where you will be surrounded by chow-downers. Employees who only have an hour and their spouses work across town and so they — like you — will be alone.
Resist the urge to hang out with your cell phone.
When you are comfortable with eat lunch and run, take yourself out for dinner. A restaurant with linen and silverware. You’re no less intriguing a person when you’re eating solo dessert to cleaning the whipped cream from the dish with your finger. In fact some people at full tables will wish they were where you were.
Go to the movies. Where it is dark and soothing. Alone in your seat amidst a fleeting community.
And then, take yourself out dancing to a club where no one knows you. Stand on the outside of the floor till the lights convince you more and more and the music shows you. Dance like no one’s watching…because, they’re probably not. And, if they are, assume it is with best of human intentions. The way bodies move genuinely to beats is, after all, gorgeous and affecting. Dance until you’re sweating, and beads of perspiration remind you of life’s best things, down your back like a brook of blessings.
Go to the woods alone, and the trees and squirrels will watch for you.
Go to an unfamiliar city, roam the streets, there’re always statues to talk to and benches made for sitting give strangers a shared existence if only for a minute and these moments can be so uplifting and the conversations you get in by sitting alone on benches might’ve never happened had you not been there by yourself
Society is afraid of alonedom, like lonely hearts are wasting away in basements, like people must have problems if, after a while, nobody is dating them. but lonely is a freedom that breaths easy and weightless and lonely is healing if you make it.
You could stand, swathed by groups and mobs or hold hands with your partner, look both further and farther for the endless quest for company. But no one’s in your head and by the time you translate your thoughts, some essence of them may be lost or perhaps it is just kept.
Perhaps in the interest of loving oneself, perhaps all those sappy slogans from preschool over to high school’s groaning were tokens for holding the lonely at bay. Cuz if you’re happy in your head than solitude is blessed and alone is okay.
It’s okay if no one believes like you. All experience is unique, no one has the same synapses, can’t think like you, for this be releived, keeps things interesting lifes magic things in reach.
And it doesn’t mean you’re not connected, that communitie’s not present, just take the perspective you get from being one person in one head and feel the effects of it. take silence and respect it. if you have an art that needs a practice, stop neglecting it. if your family doesn’t get you, or religious sect is not meant for you, don’t obsess about it.
you could be in an instant surrounded if you needed it
If your heart is bleeding make the best of it
There is heat in freezing, be a testament.
Eu dei meu melhor sorriso
Volte amanhã
Quando a luz baixar e as coisas se mostrarem
O dia será novo e assim as intenções
Estarei à espreita.
Na tolice minha
Esperando por esperar,
Como as rochas o mar
Venha até mim
Deixe-me abraçá-la por entre os dedos
Escape o suficiente para fazer-me feliz
Fincar ou flutuar ao canto da sereia,
Na disposição das águas
No dourado da areia
Com a ressaca esvai-se meu orgulho,
Com as ondas retorna meu infortúnio
Volte amanhã
Encante-me uma vez mais
Despedace-me numa alcova de palavras
Minha tolice recompensará
Envolta em sargaço
Quando a maré baixar
Palpitando a sua ausência
Nade até mim,
Fundo,
Além do azul anil e da espuma branca
Lance sua rede oca
Me leve ao lugar de onde vim
Eu e meus contraditórios
À mordaça
Para dentro do baú
Com a chave em minhas mãos
E as sílabas na cabeça
Mas volte amanhã.
Achei incrível essa tirinha do canadense Vincent Giard, utilizando animação para colocar sensações nos quadrinhos. Talvez isso nem seja novidade, mas não lembro de ter visto antes. A estética de quadrinhos em animações sei que já existe há muito tempo, mas tirinha animada desse jeito, foi a primeira vez que vi.
Um adolescente imagina que tem 23 anos, tem todas as mulheres que quer e disputa a garota dos sonhos em partidas de videogame contra seus sete ex-namorados. Em uma frase, esta é a generalização do gibi Scott Pilgrim e, como toda generalização, traz imprecisões, claro. Mas esta é a minha conclusão, outros podem ler e nem enxergar assim. Ambiguidades à parte, um fato deve ser unânime: a história é leve e fácil de deglutir… isso é ruim?! Em geral é.
No começo eu estava quase tocando fogo nesse gibi, mas resolvi ter um pouco de paciência e ler até o fim. Sabe, tudo é meio fácil e bobinho mesmo, mas o que salva a história é a condução irônica dada pelo autor, o canadense Bryan Lee O’Maley. O capítulo 1, por exemplo, chama-se “A preciosa vidinha de Scott Pilgrim” e depois temos “Scott Pilgrim contra o mundo”. É perceptível o tom sarcástico destes títulos. Se o autor ironiza a condução da novela gráfica, por que nós vamos levar a sério? Entramos na brincadeira também e tentamos nos divertir.
Sempre que leio um gibi, fico a pensar no tempo que o autor gastou em cada página. Costumo ficar apreciando cada detalhe da arte. Neste gibi, desenhado à la mangá, percebi um cuidado especial do O’Maley no figurino de seus personagens. O SPFW perde feio para o requinte modernoso do guarda-roupa. Exagerado, eu? Olha, os jovens desse gibi se vestem muito, muito bem! E tem mais, não são como o Donald, sempre com o mesmo uniforme de marinheiro para todo o sempre. Os personagens trocam de roupa o tempo todo, desfilando sempre um modelito mais elegante que o outro. E tem mais, cortam e tingem seus cabelos, mudando de cara ao longo da história. Tudo isso dá um charme realista à traminha, é inegável.
Mas não pense que o realismo desses fatores somado às locações reais da cidade de Toronto é uma constante. A história é sempre invadida por elementos super fantásticos e mesmo inverossímeis frente ao realismo antes apresentado. É como zapear um controle remoto, saindo de um universo que tem lá sua complexidade e indo para outro, tipo só-porrada, sem pé nem cabeça, assim… total Mario Bros. Inicialmente isso causa um certo estranhamento ao leitor, mas com o tempo aprendemos a achar um jeito de aceitar os absurdos.
Uma observação devo fazer a respeito desse primeiro volume: o que tem o figurino de muito bem elaborado, tem os cenários feitos-de-qualquer-jeito-pra-
acabar-logo. Bah, nem é tão ruim assim, mas acaba se contrastando pelo cuidado que o desenho dos personagens parece ter.
O autor tem 32 anos e é canadense, apesar do estilo mangá de seu gibi. Scott Pilgrim acabou de chegar ao Brasil, através da Quadrinhos na Cia, mas lá fora a série já está acabando no volume 6, neste mês de julho. Aqui será editado em apenas 3 grossos volumes de quase 400 páginas cada.
No rastro de sucesso da HQ vem aí um longa metragem, que estreia no Brasil em outubro. Espero que até lá a Quadrinhos na Cia já tenha lançado os 3 volumes. Não aprecio ver um filme antes de ter acesso à obra original. Tem também um game chegando, veja aqui.
Uma curiosidade: o gibi original traz páginas coloridas a partir do volume 4, mas não precisa esperar, encontrei na net uma versão extra colorizada que vale a pena ser vista, aqui, e também a comparação de cenas entre o gibi e o filme, aqui.
Eduardo Rocha é designer por formação, mas também ilustrador e fotógrafo por paixão. Aliás, se dependesse só de paixão, seria também cineasta, músico e escritor. Mas já tá bom assim.