Nem era seu aniversário mas estava lendo o conto de um escritor que você nunca vai fazer questão de conhecer. Antes de chegar ao final me dei conta de que nunca, talvez, tenha dito o quanto você importa.
Acho que não faz ideia de que tantas vezes fui para o trabalho comentando que você é uma das melhores pessoas que eu tenho. A mais próxima também, ao mesmo tempo em que estamos tão distantes pela geografia e pelos nossos gostos exagerados por coisas diferentes. Tanto quanto somos nós dois.
Talvez faça mais de um ano que você não deita no meu colo. Outros mais que eu não te procuro no meio da noite, quando acho que alguma coisa não vai dar certo – era para você que eu corria sempre que isso acontecia, lembra? Apesar de ter sentido tantas vezes, nunca mais estive perto o suficiente para deitar na cama junto com você. Para você cuidar de mim como se eu fosse uma cria sua. E me chamar de Maguinha sem estar bravo comigo, gesticulando sem perder completamente a calma. E me passar a certeza do homem que Adriana Falcão dizia não ter dúvidas de nada. Uma certeza otimista que sempre me convencia de que as coisas iriam mesmo dar certo.
Tenho que contar daquelas noites em que você me emprestava a sua paz depois ficava indo até a cama de mansinho para ver se eu já tinha adormecido. Às vezes eu fingia estar dormindo só para você ficar mais tranquilo. E você nem sabe disso.
Você também nem sonha que eu já te perdoei por levar as cartas dos seus amigos para mim – mesmo tendo rasgado cada uma delas e dado descarga para você ver. Eu também dou risada disso porque no fundo, acho que você pensava que eu precisava deles para cuidarem de mim.
Pensava tudo errado porque eu nunca te falei que você bastava. E agora eu sinto falta de você aqui perto. E da sua calma que me contagiava; do seu cafuné e das suas coisas que eu não ligo muito. Eu sinto falta de estar do seu lado, te vendo soprar mais essa vela e desejando com muita força que o mundo ganhe mais pessoas como você nesse 18 de abril. E em todos os outros dias da vida.
Recife é uma cidade peculiar, uma das poucas em que o esquema social, de vivência e não apenas de convivência, é um emaranhado, uma mistura completamente desordenada. A classe rica mora ao lado da classe média que mora ao lado da classe pobre que mora ao lado da classe miserável. E mesmo sendo um dos elementos que possivelmente a tornasse uma cidade mais interessante, parece também ser o motivo de sua segregação intuitiva. Moramos próximos, mas não convivemos. Convivemos, mas não confraternizamos. E essa relação social está intrinsecamente ligada à nossa realidade urbanística, como a verticalização, o engradamento e a carrocracia. É a sociedade deixando clara a delimitação social que não conseguiu “naturalmente”. Logo, nos escondemos. Um dos outros elementos que determina a cidade do Recife é o sentimento do seu cidadão, a sua postura valorativa e seletiva, de gostar de ser único, de sofrer poucas influências externas, de criar diante das adversidades, de se posicionar como transformador do seu próprio meio. O que obviamente inicia-se como um processo interessante de autoconfiança, se deteriora através da inabilidade da autocrítica, transformando-a em arrogância.
E é através desse prisma que o filme O Som ao Redor permeia tão bem. Utilizando uma estrutura narrativa muito segura, o cineasta Kleber Mendonça Filho cria uma atmosfera de observação, onde o cotidiano e as ações mundanas – ou não – dos seus personagens tornam-se o mote principal da história. Utilizando a cidade não apenas como pano de fundo e sim como um elemento vivo e reativo, o filme cria uma dinâmica com seus personagens que difere do mosaico de Robert Altman, Paul Thomas Anderson e Iñarritu – onde os personagens desconhecidos entre si se encontram em um determinado momento –, e aposta mais na interação e comunhão entre eles naquele espaço. O filme tem uma relação mais estreita com Código Desconhecido (Code Inconnu, 2000) e Caché (Idem, 2005) do Michael Haneke, e também com O Pântano (La Cienaga, 2001) da Lucrécia Martel. Ambos possuem essa aura de observação e análise de comportamento, imersos em um ambiente cheio de tensão e suspense, como se algo ruim estivesse sempre à iminência de acontecer.
Fazendo uso de um excelente plano-sequência – em que acompanha uma garota em patins -, o filme logo de início recria um exemplar dessa composição social, onde crianças brincando no parquinho do prédio são “vigiadas” por suas babás e câmeras de seguranças diante de um imenso muro, protegendo-as de um perigo que logo cedo já faz parte do nosso cotidiano. Mas antes dessa cena, fotografias antigas são postas em tela lembrando um passado não tão distante de Pernambuco. Nossa influência colonial, de engenho, é ainda uma grande pedra nos sapatos da nossa sociedade. Essa postura Casa Grande & Senzala perpassa durante toda a projeção, mostrando nossas feridas e as consequências desse passado senhorio. Em um dos núcleos de personagens, vemos uma típica família de classe média, composta por um marido, uma esposa e dois filhos… Ah! E uma empregada doméstica. Mesmo sendo retratada como uma família liberal e intelectualizada, as atitudes perante a “secretária do lar” (termo babaca repleto de sentimento de culpa) são incoerentes com os seus “ideais”. E até a própria existência dela no lar – já que a mulher em nenhum momento aparece trabalhando OU mesmo fazendo algo – poderia ser classificada como um desses resquícios. E para não se tornar apenas uma alegoria pontuada, um dos personagens, Seu Francisco (W.J. Solha), é a representação fidedigna dessa aristocracia rural. “Aqui eu só moro, minha vida mesmo é lá nas minhas terras” diz em um momento o senhor de engenho por natureza. Proprietário de quase todos os imóveis da rua, o roteiro o apresenta como um cara sisudo e dono da situação. Sempre ditando as regras, Seu Francisco é possivelmente o melhor retrato dessa ligação passado, presente e futuro que o filme aborda.
Utilizando o som como um fio condutor da história, apresentando-o em uma atmosfera quase dantesca, mas misturado a elementos naturais e vivos do cotidiano daquelas pessoas, o filme vai construindo uma trama que diante de todo esse estudo antropológico, passava despercebida, mas que se resolve dentro do tema já proposto logo de início. O que parece, em uma primeira análise, desconexo, se torna fundamental para entendermos a intenção do artista. Mas é na observação que o filme tem o seu maior mérito. Kleber deixa a câmera contar a história, não tem pressa, aguarda, espreita, permite aos seus personagens se revelarem, contarem seus segredos. E ao final da projeção, todos aqueles personagens estão a sua volta, na sua rua, na sua esquina, na sua casa, e a reflexão proposta pelo filme se torna tão pessoal quanto à do realizador.
Tava tudo combinado. E o combinado era que, para driblar a negativa dos meus pais em relação a ter outro cachorro em casa, porque dá muito trabalho, porque a perda do anterior tinha sido muito traumática pra todo mundo e blábláblá, você chegaria de repente.
E assim você chegou, em forma de crime premeditado e presente de amigos muito queridos, David e Vanessa, que deixaram uma cestinha na nossa porta com uma bolinha peluda dentro e um bilhetinho que dizia apenas : “Oi, meu nome é Keiko, preciso de um lar, podem cuidar de mim?”.
Eu e minhas irmãs, Claudinha e Celinha, caprichamos na cara de surpresa. Esse, sim, o maior teatro ao ar livre do mundo. Meus pais, claro, chiaram, mas logo se renderam àquela coisinha fofa que cabia numa mão, andava rebolando e tinha o olhar mais indefeso e doce do mundo.
Agora, Keiko, 12 anos depois, isso de você ir embora no dia de Natal, não tava combinado. O combinado era que o povo da família iria chegando para a ceia e você iria recebendo um a um com cem milhões de latidos e criando a mesma farra e confusão de sempre. O certo era que você saltaria do chão para o sofá, do sofá para o colo de alguém e do colo de alguém para perseguir alguma tia carregando um prato de comida quentinha e cheirosa pela casa. Aí, no meio do caminho, as crianças iriam te chamar pra brincar e você toparia na hora, toda feliz, mesmo imaginando que logo em seguida uma delas fosse puxar o seu rabo. Então você teria um pouquinho de paciência, mas na terceira investida você morderia o calcanhar de quem estivesse pela frente e alguém teria uma ideia genial: “Prende Keiko!”. E isso duraria cinco minutos, quando você estaria de novo no meio da fuzarca, causando o maior rebu, enquanto Mainha perguntaria, ensandecida: “ Ai, meu deus, quem soltou Keiko?”. E eu ficaria ali, rindo em silêncio, só pra mim, da própria trela, enquanto mexeria qualquer coisa no fogão. Mas aí tudo saiu diferente do combinado.
Eu até sabia que você poderia ir embora a qualquer momento, pois Dra. Carol, aquela anja, já tinha feito tudo que podia fazer por você esses anos todos, da melhor forma possível. Mas eu não esperava que fosse agora. Tão já. Logo hoje, que tinha festa. Bem na hora em que eu tinha saído, sem que eu pudesse me despedir, sei lá, dizer, desculpa, Keiko, por ter te atropelado no corredor tantas vezes sem querer enquanto tava apressada pra lá e pra cá. Desculpa, Keiko, pelos dias em que eu esqueci de passear com você. Foi mal, Keiko, por ficar colocando lacinho no seu pêlo e também por ser contra te dar comida da mesa.
Mas, tudo bem, né? Você nunca ia dizer desculpa mesmo e eu sempre te perdoei por ter roubado o galeto do meu prato, deitado em cima do meu vestido branco que tava passado em cima da cama, feito xixi no lugar errado, derrubado a lata de lixo pela milésima vez e inventado de ter filhote justo na noite da formatura de Lu e Aninha. Eu sei, tá tudo certo, a gente não precisava mesmo dizer nada, porque entre grandes amigos há uma certeza de afeto tão grande que dispensa qualquer mimimi.
Mesmo assim, eu queria dizer, assim, mesmo sem ser preciso e sem saber se você vai escutar, brigada por ter me alegrado tantas vezes com a sua presença, de tantas formas. Pulando feito cabrito quando eu chegava. Indo pegar a bolinha e trazendo de volta. Me enchendo daquela lambida babada no joelho. Correndo comigo pela praia igual a abertura de novela de Manoel Carlos.
Brigada por ter colocado os ladrões que entraram no apartamento pra correr. Brigada por me fazer companhia, caminhando comigo nas ruas onde eu cresci ou deitada na minha barriga diariamente enquanto eu lia o jornal. Brigada, tá, por sempre ter ficado perto quando eu tava triste ou doente ou cansada ou vendo tv ou cantando para o mais novo neném da casa dormir.
Corta para alguém mal-humorado dizendo: “Mas que drama, é só um bicho!”. Pois é, mas tem bicho que é mais gente do que muita gente. Tem bicho que é muito, muito incrível.
Uma vez eu cheguei com o meu carro novo e gritei da garagem: “Painho, vem ver!”. E ele apareceu na varanda, dizendo: “Vinha, Keiko já tava lá na porta te esperando, outra vez, antes de você chegar. Tá vendo, não era porque ela conhecia o barulho do seu carro”.
Acho que esse amor todo, Keiko, era simplesmente porque você me conhecia. E conseguia de alguma forma muito louca, mas muito real, ler a minha alma e a de todo mundo de quem você gostava e que gostava de você.
Mas, e agora, Keiko, como é que vai ser? Como é que vai ser sem você pra me acordar de manhã e ficar fazendo barulho mexendo com a pata o seu pratinho de comida no chão? Como é que vai ser se eu não lembro direito exatamente o que foi que o menino de Frankenweenie, aquele filme lindo de Tim Burton, fez pra trazer o cachorrinho dele de volta? Como é que vai ser, Keiko, quando eu brincar de morder o pé de chulé de Davi (outro Davi, meu sobrinho), de Filipe ou de Samuca, eles acharem que eu tô te imitando e falarem como sempre, entre gargalhadas: “Ai, Keiko!”. E depois: “Cadê Keiko?”. O que é que eu vou dizer? Como é que eu vou explicar? Acho que eu vou falar só o básico: Keiko foi para o céu. Embora eu saiba que você ainda tá bem viva aqui. Aqui dentro.
Foto: Sparky, personagem de Frankenweenie, de Tim Burton.
Amor, eu preciso que você me escute. Preciso que sente aqui do lado como se fosse a sua primeira visita. De mãos dadas comigo e os olhos bem abertos, para acreditar em tudo o que eu tenho para falar.
Estive pensando um pouco e decidi mandar você embora.
Preciso que solte as minhas mãos, para começar. Que deixe as paredes vazias, a luz acesa e nenhuma vela espalhada pelos cantos da casa.
Eu também preciso que você me deixe em silêncio. Quero ensurdecer sempre que um Dó e um Fá se combinarem com alguma doçura – qualquer melodia me lembraria que você existe e eu não aguento mais.
E essas flores, amor? Você pode levá-las com você?
Eu te arrumo uma caixa, claro. Assim você organiza tudo do seu jeito e deixa guardado para um outro momento, quem sabe. Mas agora eu preciso que você vá.
Preciso que me deixe, que é para eu sentir a sua falta. Para eu endurecer e amargar com o tempo, amor. E nunca mais chorar.
Preciso que você desapareça para eu não me reconhecer quando olhar em volta, vir somente a mim e não ligar nem um pouco. Para economizar abraços, poupar pensamentos e investir em coisas que são mais importantes agora.
Vai, amor. Vai bater em outra porta.
Me devolve aquela paz indiferente de quem não te sente por perto. Põe os meus pés no chão, minha cabeça no lugar e me deixa ser só pele.
Eu e você já não cabemos juntos em um só corpo, amor. E se algum de nós tem que deixá-lo, que não seja eu.
O V Janela Internacional de Cinema do Recife reservou espaço na grade para exibição de filmes que durante o ano de 2012 foram produzidos e veiculados no YouTube. Todos, independentes entre si, debatem o problema do crescimento desordenado da cidade.
Em “Velho Recife Novo”(Luiz Henrique Leal, Caio Zatti, Cristiano Borba e Lívia Nóbrega), possivelmente o filme com melhor consistência de argumentos, escuta especialistas em arquitetura e urbanismo e deixa claro desde o inicio a desfiguração que ocorreu na cidade e, o pior, a que ainda está por vir. Focado e bem estruturado, alternando entre argumentos técnicos e sociológicos, o filme se mantém em seu discurso principal, que é o debate sobre a “privatização” dos espaços públicos, e demonstra com grande eficácia as consequências desse enclausuramento das pessoas em compartimentos, como prédios, condomínios fechados e seus carros. Na cidade não há mais integração entre as pessoas, nem delas com a cidade. O filme ainda vai além e demonstra como os interesses de terceiros (corporações) buscam esse cerceamento do espaço público transfigurado de progresso.
“A Praça é pra Quem?”(Amanda Beça, Bruna Monteiro) é um exemplo de ativismo social, que, com cerca de 2 minutos, deixa clara a apropriação do público pelo privado, como foi citado acima. Utilizando de uma personagem, Juliana Duarte, estudante de jornalismo, cadeirante, moradora do bairro e cidadã, o filme é extremamente eficaz na sua essência, ser um meio de transformação social. O curta registrou o absurdo da apropriação de uma praça pública por dois estabelecimentos no intuito de torná-la estacionamento para seus clientes. A inteligência da direção do curta-denúncia foi colocar a personagem na tentativa de usufruir o bem público, o que se demonstrou um fracasso imediato. Alcançando as redes sociais, o vídeo fez barulho e, dias após sua viralização, a praça foi devolvida aos cidadãos.
“Descontrução Civil”(Felipe Peres Calheiros) é o registro da Assembleia Pública realizado no ano de 2012 sobre o “Projeto Novo Recife”, que visa a construção de complexos empresariais, novos pólos residenciais e um redesenho nas avenidas, pontes e viadutos. Diferentemente dos demais, o vídeo se torna apenas um registro do acontecido. Mas faz uma rima interessante: enquanto os argumentos das empresas e corporações são dados através de uma apresentação de vídeo – extremamente frio e falso –, o outro lado coloca seus pontos de vista através do discurso verbal, que se torna mais humano e verdadeiro.
Depois desses três vídeos que debatem a situação urbanística da cidade, a sessão Câmera Cidadã No Recife deu espaço a quatro vídeos com outra proposta. Enquanto, uns discutem, outros agem. É baseado na força da ação, da prática das ideias, em que o grupo sem nome, anônimo por natureza, busca a mudança através da ação e não apenas no campo das ideias. O primeiro, “O Diabo aplica multa cidadã em frente à Igreja”(anônimo), é o único a utilizar a estrutura cênica para suas ações, quando um Diabo aparece distribuindo adesivos em carros estacionados ilegalmente na frente de uma igreja localizada na Avenida Rosa e Silva, no bairro dos Aflitos, no Recife. Acompanhado pela trilha de Zeca Baleiro “Heavy Metal do Senhor”, o vídeo utiliza de humor para suas ações, principalmente quando abdica um pouco do seu lado marginal e entra em contato com a CTTU (Companhia e Trânsito e Transportes) denunciando os infratores em frente à “Casa do Senhor”.
Em “Ciclistas Invisíveis de Casa Amarela”(anônimo), o grupo utiliza a estrutura de documentário para ouvir ciclistas e obterem opiniões sobre o papel das ciclovias para o trânsito da cidade. As opiniões são bem homogêneas, onde se percebe que o respeito à segurança dos pedestres e dos ciclistas é sempre colocada em questão quando se pensa em restringir direitos dos usuários dos carros.
Mas é através dos vídeos “Ciclofaixa Cidadã”(anônimo) e “A Praça é do Povo”(anônimo) que vê-se a marginalização das ações do grupo, apoiado pela simples ideia do espaço público como bem inerente e inalienável do cidadão. Em ambos os vídeos, os anônimos, mascarados, realizam ações que são responsabilidades do poder público, pois o sentimento cidadão se torna tão intrínseco que a espera apenas os tornariam cúmplices desses desrespeitos. Pintam eles mesmos faixas de pedestre e ciclofaixas, no intuito de exercerem os direitos de locomoção instituídos pela Constituição Federal.
Após algumas trocas de mensagens, consegui entrar em contato com dois membros do grupo e pude fazer algumas perguntas e obter respostas esclarecedoras.
ENTREVISTA
1. Para que não haja uma superinterpretação diante destas atividades, não seria interessante deixar claro para pessoas qual o objetivo principal desse ativismo?
O principal das ações é debater, provocar e convocar.
Debater o estilo de vida que estamos adotando na sociedade, com a carrocracia como elemento intrínseco à cidade. A entrega do espaço urbano aos carros e à sociedade motorizada.
Provocar a sociedade e o poder público para que enxerguem a realidade carrocrata da cidade.
Convocar a sociedade a participar mais ativamente de sua cidade.
A reclamação tem que sair da mesa do bar e das redes sociais e ganhar o mundo. Não é possível que a cidade tenha uma péssima qualidade de vida e isso não traga respostas de insatisfação da sociedade. Há ações acontecendo nos mais diversos planos: legal, educativo, midiático e ações práticas. Às vezes são ações, mas muitas vezes são REações. Mas, o interessante é quando algumas ações têm efeitos práticos, como a pintura da faixa de pedestres que acaba sendo utilizada pelos transeuntes e respeitada pelos motoristas.
2. Por que ser anônimo?
O anonimato tem pelo menos dois viés, igualmente importantes.
O primeiro é a preservação do indivíduo que realiza a ação, protegendo contra quaisquer eventualidades que possam acontecer, e de qualquer um que se incomode com a ação. Temos um discurso de legalidade extrema, principalmente no trânsito, que infelizmente não é usado amplamente na prática. Pintar uma faixa de pedestre, por exemplo, pode ser considerado dano ao patrimônio público. Então aplica-se a legalidade extrema. Enquanto isso, o pedestre não tem prioridade de verdade nas faixas de pedestre ou mesmo onde elas não existem, e o ciclista é ameaçado constantemente no trânsito. A justiça é cega de um olho só. Infelizmente faz-se necessário o anonimato, por esta bipolaridade das autoridades na aplicação da lei.
O segundo motivo é se evitar o surgimento de heróis. Não há heróis. Não há um que vá fazer isso sempre, qualquer um pode realizar uma ação e divulgá-la ou não. A ideia é que as pessoas se instiguem com a ideia e saiam de seus sofás e venha clamar por seus direitos. Um herói só deixa as coisas mais cômodas, pois, acabamos por esperar pela ação deles.
3. Qual o alcance que o grupo, aparentemente independente entre si, busca com essas manifestações? O fato de serem anônimos atrapalha as realizações práticas perante as instituições governamentais?
Até queremos que os governantes ajam corretamente, que olhem pelos cidadãos, motorizados ou não. Mas hoje isso é um sonho, e sabemos que nossas ações vão mudar muito pouco quanto a isso. Mas se vários outros se instigam a fazer o mesmo, dezenas, centenas de pessoas, a insatisfação com gestões carrocratas se legitima como uma demanda da sociedade, e não de poucos. E mesmo que fosse de poucos, como é o caso dos portadores de necessidades especiais, é função do Estado governar também para as minorias. Tratar de forma desigual os desiguais é simplesmente trazer um equilíbrio ao direito de usar as ruas e a cidade, no caso.
4. As manifestações deixam clara a busca por espaços públicos para o público, e consequentemente atingem direta ou indiretamente o interesse privado como fator predominante. Até onde o discurso consegue ser coerente, já que possivelmente, alguns membros moram em prédios e possuem carros?
As condições de vida na cidade trazem certas deturpações quanto à esse tipo de provocação. Não há incoerência em morar em um apartamento ou possuir um carro. Não se trata de utopia querer uma cidade em que se possa transitar ou viver dignamente no espaço urbano público. Almejar um espaço urbano de melhor qualidade é uma demanda de todos. Os cidadãos querem, na medida do possível e realizável, viver suas pequenas utopias internas para possibilitar a construção de um espaço maior de convivência. Vivemos uma heterotopia e, boa parte dessas pessoas, já se entrega ao mundo não motorizado.
5. Quanto o “Novo Recife” pode ser prejudicial para o equilíbrio urbanístico da cidade?
O projeto no Cais José Estelita? Certamente será. Despejar centenas de carros no cais José Estelita não é solução urbanística. Construir alças, Via Mangue, é claramente uma tentativa – certamente sem sucesso – de resolver o problema da mobilidade para poucos. Está sendo construída uma cidade de classe média alta dentro de Recife. Vindo do Evolution, Le Parc, Via Mangue, Shopping RioMar, “Novo Recife”, Torres gêmeas até o Porto Novo. Descaradamente, a Via Mangue, obra mais cara de mobilidade das últimas gestões, é feita para carros, e não permitirá o trânsito de ônibus. Terá uma ciclovia por uma obrigação moral e legal, mas tirando o ciclista do meio da cidade, que é onde mais se vislumbra o uso da bicicleta. Uma tentativa de transformar o ciclista em alguém que não vive a cidade, mas apenas transita, vai de um ponto a outro.
Voltando ao Novo Recife – não dá pra falar neste megaprojeto sem falar na Via Mangue – teremos este novo bairro, com novos carros, e o pedestre continua sendo um ser isolado. De um lado, o Cais José Mariano, com uma grande avenida, do outro o Viaduto Capitão Temudo e a Ponte Paulo Guerra, sem estrutura para o pedestre e o ciclista. Surge a ilusão de que os não motorizados têm vez, mas o que temos é uma ilha da fantasia cercada de concreto por todos os lados.
Acho importante o uso da área com fins de ocupação mista – residencial e comercial e para diferentes classes – para que haja uma recuperação daquele espaço e a criação de uma área de convivência. O que não pode é ser repetido o mesmo modelo de ocupação com prédios segregadores dos indivíduos, que criam um espaço de arquitetura do medo, em que só se torna “possível” sair de casa em sua bolhas de vidro e metal. É preciso a criação de um espaço em que haja vida circulando, para que haja segurança e convivência.
6. A cidade do Recife possui inúmeros problemas estruturais, principalmente nas áreas periféricas, saneamento básico sendo um dos maiores. Como demonstrar que os problemas propostos por vocês não passam de “problemas da classe média”?
O problema atacado está mais voltado à mobilidade. A resposta vem com a democratização do espaço e a humanização do trânsito. O uso do espaço democraticamente já se pressupõe que haja acesso por toda a sociedade, independente de classe. A humanização do trânsito vem para possibilitar que todos transitem com segurança pelo espaço, independente do modal utilizado.
Hoje, o que vemos é uma classe dominante em cima de motores que se transformam em armas, matando indiscriminadamente, mas atingindo àqueles que não têm opção de modo de transitar, os que andam ou pedalam todos os dias. O que vemos são engarrafamentos constantes, provocados pelo excesso de automóveis e a população presa dentro de ônibus como sardinhas. Busca-se a libertação nesses dois aspectos. No mais, as velocidades motorizadas permitem que aumentemos nossas periferias e joguemos a população mais pobre para longe das cidades, obrigando estas a usar esses transportes coletivos, pois não há mais possibilidade de se chegar ao trabalho com suas próprias pernas. A imobilidade atinge a todos, mas não igualmente.
As propostas de se olhar pelo menor primeiro, inclusive, se demonstram economicamente favoráveis e viáveis às cidades. Essa economia pode ser usada para solucionar os problemas estruturais citados.