Dos dias 04 a 13 de Novembro de 2011, Recife teve a oportunidade de assistir a mais de 150 filmes, entre curtas e longas metragens, através da quarta edição do Janela Internacional de Cinema do Recife. Um festival que cresce cada vez mais, contudo não deixando de lado as suas ideologias artísticas. A programação elaborada pelo jornalista e cineasta Kleber Mendonça Filho, conteve a mesma estrutura de dividir os filmes em sessões que criam laços estéticos ou temáticos parecidos. Esse ano dei uma maior atenção aos curtas-metragens nacionais. Além do presente oferecido a nós espectadores, a filmografia completa do cineasta Stanley Kubrick exibidos no belíssimo cinema São Luiz.
GRITOS PRIMAIS


De imediato, o curta-metragem Da Origem (2011), dirigido por Fabio Baldo, encanta pelo seu design de produção, retratando com muita competência o período da Pré-História, mas se tornando ao mesmo tempo atemporal no seu discurso. A análise do poder (aqui a descoberta do fogo) como elemento formador da sociedade é o mote ideal para deixá-lo atual e instigante.
Já em Avalons (2011), também trabalhado intensamente em um conceito estético, o discurso é vazio, focando claramente para o vislumbre visual. Retratando uma espécie de mundo medieval estilizado, o filme apela para gags infantis que soam na maioria das vezes idiotas e sem conteúdo. O roteiro nitidamente destoa da seriedade e compromisso da conceituação artística implantada na elaboração desse mundo fantástico.
Em Porcelana (2010), a câmera adquire, desde seus primeiros minutos, um compromisso de cumplicidade com a história. Apostando inicialmente na câmera estática, o nosso olhar é levado a procurar respostas por todo o cenário, tentando desesperadamente entender o que acontece em tela. Utilizando uma estrutura narrativa que lembra Aleksandr Sokurov, mais especificamente na sua obra O Sol (Solntse, 2005) o filme é bastante eficaz na sua proposta de sensações.
Cachoeira (2010) conta a história de jovens indígenas do alto do Rio Negro na Amazônia que praticam rituais suicidas após ingerirem a tal da “bebeiragem”, uma espécie de mistura de cachaça e fumo. O cineasta Sergio José de Andrade percebeu a importância dessa história, inspirada em fatos reais, e a contou de uma forma muita sensível, mas ao mesmo tempo bastante forte e crua. Abordando de uma forma alarmista, mas fugindo do tom assistencialista, o filme retrata a realidade dos jovens indígenas em se adaptar a novos paradigmas sociais, que consequentemente os levam aos mesmos problemas sociais do “homem branco”, como no caso em questão ao alcoolismo. As relações econômicas se misturam ao misticismo, nos levando a uma jornada sensível e ao mesmo tempo preocupante.
MEU ESPAÇO



Monja (2011) é aquele típico curta-metragem que versa sobre o minimalismo de suas imagens e o estranhismo de seus personagens. Utilizando uma câmera quase estática, o filme demonstra a inadequação de sua personagem principal em seu ambiente e a dificuldade de interagir com os mais simples dos objetos. Durante boa parte do filme comecei a idealizar uma espécie de síndrome do pânico e relacionar as ações da personagem com a doença, até que ela decide parar de agir como uma idiota que não sabe mexer no ventilador e ir ao shopping. Um filme vazio e sem propósito que tenta ser diferente, mas que consegue ser igual a todos os que propõem esse “pseudo-minimalismo”.
Os Sapos (2011) é um ótimo e bem humorado estudo de personagens. O filme é engendrado quando um casal decide passar uns dias em uma rústica casa de campo e uma amiga de infância é convidada para o final de semana. O casal possui uma dinâmica bastante realista e leve, já que ambos chamam-se carinhosamente por patentes militares (o homem como sargento e a mulher como capitão) e durante todo o filme ficamos em dúvida sobre a verdadeira densidade do relacionamento. A amiga em questão vem para colocar esse relacionamento em xeque. No final das contas, percebe-se que a hierarquia das patentes se mostrou inverso da realidade, que a capitã era submissa ao sargento e que, às vezes, as pessoas são felizes mesmo engolindo “sapos”.
A Janela (ou Vesúvio) (2010) tenta ilustrar uma crítica ao aprisionamento da família brasileira devido à violência, mas se torna óbvia e um tanto simplista utilizando a TV e seus programas policiais como motor principal de sua mensagem. O filme chega ao rasteiro quando diante de um travelling muito mal realizado, utiliza uma grade e relaciona a sensação de estar protegido com a de aprisionado. Ao final, vemos toda uma família unida e sitiada dentro de um quarto assistindo a realidade através da TV, ou “janela”.
O Hóspede (2011) conta a história de uma pousada no interior da Paraíba que recebe um “viajante” misterioso, e combinado a estranhos eventos narrados pelo rádio, o proprietário começa a investigar esse enigmático hospedeiro. Fazendo um paralelo da transmissão de Orson Welles da obra “Guerra dos Mundos” de H.G. Wells, com a filmografia dos cineastas de terror da década de 50, o curta torna-se uma verdadeira espécime de um filme de gênero. Apostando no preto e branco, realça a importância das sombras no gênero e na trilha estridente, captando o tom ideal para o suspense. O humor também está muito presente durante todo o curta, tanto do casal dono da pousada, quanto do próprio hóspede e das situações absurdas. Também deixa transparecer homenagens ao cinema da parceria Ed Wood e Bela Lugosi. Infelizmente, quando o tema foi colocado em discussão, os realizadores foram bastante defensivos sobre essa temática trash, rebatendo a comicidade do projeto e deixando claro que a intenção nunca foi fazer humor e sim um terror. Sinto informá-los, mas ao lançarem um filme, a única interpretação que conta é a do espectador.
Acercadacana (2010) é um documentário que denuncia a realidade de algumas famílias – especificamente Dona Maria Francisca – na área canavial da Zona da Mata de Pernambuco. Ao iniciar, o filme mostra-se muito inteligente em sua estrutura narrativa quando, para situar o espectador, opta por ter o motorista que levará a equipe de produção ao encontro de Dona Maria explicando toda a história envolvendo interesses do Grupo Petribu e moradores da região. Infelizmente, por causa de um problema de áudio ficamos sem metade da explicação da história. Mas o que realmente importa é que famílias foram retiradas, muitas vezes forçadas a saírem de suas casas para apropriação de seus terrenos e assim terem explorados a cana de açúcar e consequentemente o etanol. O filme retrata a obstinação de Dona Maria em permanecer na casa em que morou durante 40 anos, contra os interesses de uma empresa política e economicamente forte.
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Raimundo dos Queijos (2011), propõe uma mixagem de elementos documentais e ficcionais, retratando o tal Raimundo dos Queijos, mercearia durante a semana, e bodega aos finais de semana. Um filme bastante eficaz ao demonstrar o ambiente popular e diversificado do espaço. Busca observar a interação dos habitués do local, regado a muita cerveja, música e pessoas felizes. O filme rapidamente consegue apresentar os personagens, mesmo que de longe, como se fosse apenas uma espiada, e dar personalidade a todas aquelas pessoas tão diferentes, mas que interagem tão bem juntas. Além disso, muito acertada a escolha de incluir um personagem fictício na história, como se nós estivéssemos lá, também tomando uma gelada.
Ovos de Dinossauro na Sala de Estar (2011) é um daqueles filmes que ficam com você ao sair da sala, que nos traz uma nostalgia, mesmo de uma história que nunca vivemos. Um documentário sobre Guido Borgomanero, o maior colecionador de fósseis da America Latina, mas o que o difere de tantos outros documentários é que conhecemos sua historia através de sua esposa, Ragnhil. Carismática e bastante engraçada – mesmo que involuntariamente -, ela consegue transmitir o amor pelo marido através de imagens do passado e ao mesmo tempo combater a solidão que claramente a persegue.
La Lira de Maurilia (2011) é um filme singelo que depende exclusivamente de sua protagonista, Maurilia. Claramente um desvio de produção do verdadeiro projeto fílmico. A equipe encontrou graciosidade naquela menina recitando Cecília Meirelles, no melhor estilo trava-língua. Utilizando a repetição das imagens como rima narrativa com o próprio texto recitado da garota, o filme não passa de um segmento de história.
Calma Monga, Calma (2011) é daqueles filmes que nascem derivados de outras obras. Visivelmente uma cria de Recife Frio, curta-metragem de Kleber Mendonça Filho, o filme utiliza a mesma estrutura narrativa de mockumentary, contudo iguala-se esteticamente em qualidade. O filme narra a história de uma criatura “simiesca”, “balduína”, ou Monga, que apavora a cidade do Recife, inclusive em seus lugares mais “inóspitos”, como cinemas pornôs ou os clássicos bacurais. Utilizando o programa policial “Isto é Remoso” – referência ao “Sem Meias Palavras” – como condutor desse terror “lendoso”, o filme possui uma construção de humor regional e que não abandona a crítica social – vide a cena da mesa redonda de Samir Abou Hana e seus convidados fantásticos. Referenciando as lendas urbanas recifenses como Galeguinho do Coque e Biu do Olho Verde, o curta nos entrega momentos cômicos tão simples e bem elaborados como “foi pro cinema e acabou sendo comido pela macaca”, e “é uma mistura de Tony Ramos com Wolverine” que obrigatoriamente já virou parte da cultura recifense.
FILMADOS EM LOCAÇÃO


Com Vista para o Céu (2011), filme dirigido pelo ótimo Allan Ribeiro, retrata a realidade dos conjuntos de edifícios populosos, onde a relação entre moradores é um tanto transitória, e que consequentemente torna-se sem proximidade, mas que através de simples gestos busca-se essa interatividade entre os seus próximos. É o caso desse interessantíssimo curta que diante da incomunicabilidade utiliza-se da música para a comunhão e quem sabe deixar mais próximo os personagens e suas idiossincrasias. Ao final, o elevador é o personagem comum, os olhos de todo aquele mundo.
Dia Estrelado (2011) é uma animação em Stop Motion que preza intensamente pela qualidade técnica e narrativa. Apostando na mistura do real e do cru ao caricato, o filme toma uma densidade de conteúdo digna de palmas. Retratando a difícil realidade do sertanejo nordestino, abraça a rotina de uma família na árdua tarefa de sobreviver às diversidades. A sensação de calor está sempre presente, optando pelo céu como uma grande paleta de vermelho e amarelo, contudo o design artístico da produção também alivia essa secura através de elementos mais leves e bem humorados, como a composição característica dos personagens. Um frescor para animação brasileira.
Praça Walt Disney (2011) é mais um exemplar da atual cena cinematográfica recifense que busca retratar a realidade urbanística da nossa cidade. Sendo desde o inicio um documentário de percepção, utiliza como ponto de partida a Praça Walt Disney em Boa Viagem e com isso passeia pelos elementos que formam a nossa cidade e seus moradores. Pontual na sua critica à verticalização da cidade, o filme se beneficia pela sua graciosidade em misturar elementos do filme Fantasia (1940) com as peculiaridades dos personagens daquele bairro. Infelizmente, a crítica às vezes perde o foco, desviando a discussão na utilização de outras estruturas narrativas.



























