
O EdifÃcio é um conto muito estranho sobre uma obra que nunca acaba. É uma das 33 histórias esquisitas e deliciosas de Murilo Rubião, um dos precursores da Literatura Fantástica no Brasil. O jornalista e escritor brasileiro, ao viver entre 1916 e 1991, deixou para a gente uma obra curta e contundente sobre uma humanidade solitária e sem esperanças.
João Gaspar é o engenheiro em inÃcio de carreira de O EdifÃcio, recém-contratado para comandar a obra do “maior arranha-céu de que se tem notÃcia”. Por comandar, inclua-se manter a harmonia entre os operários e a satisfação salarial dos mesmos, inclusive para evitar a lenda do octingentésimo andar. Uma previsão é de que a essa altura aconteceria uma grande confusão entre os obreiros.
“Nesta construção não há lugar para os pretensiosos. Não pense em terminá-la, João Gaspar. Você morrerá bem antes disso. Nós que aqui estamos constituÃmos o terceiro Conselho da entidade e, como os anteriores, jamais alimentamos a vaidade de sermos o último.”
A advertência chega sem maiores informações sobre a finalidade de um prédio tão absurdamente alto. E basta dizer, para não estragar o prazer da leitura, que a missão de erguer o prédio se torna tão forte que os operários continuam mesmo quando João Gaspar ordena o contrário, pois dizem seguir ordens superiores. É nesse clima intrigante que o conto continua, deixando ao final muito mais perguntas do que respostas, como bem faz a literatura.
O que na verdade é o edifÃcio? Quem são os conselheiros? E o engenheiro? Parece natural que qualquer raciocÃnio passe pela religião e alguns de seus elementos, mesmo antes de eu comentar que todos os contos de Murilo Rubião recebem uma epÃgrafe bÃblica. A que introduz O EdifÃcio é: “Chegará o dia em que os teus pardieiros se transformarão em edifÃcios; naquele dia ficarás fora da lei. (Miqueias, VII, 11)”.
Então você descobre que a ficção não é tão ficcional assim. Um tempo depois de estudar o autor, viajei para conhecer Barcelona, Granada e Paris. Quase não posso dizer que conheci Barcelona, mas gastei um bom tempo fascinada com o templo da Sagrada FamÃlia, uma obra que acontece há mais de um século. Cartão-postal de Barcelona, o templo começou a ser erguido por um arquiteto, em 1882, e no ano seguinte passou para as mãos do artista Antoni Gaudà (1852-1926), que concebeu o projeto da basÃlica.



Gaudà comandou a construção até o ano de 1926, quando morreu atropelado por um bonde nos arredores do templo. Dizem que na ocasião ele se afastava para contemplar sua obra de 40 metros de altura. Neste mês de outubro de 2012, o arquiteto Jordi Fauli foi nomeado o diretor das obras da Sagrada FamÃlia, e anunciou que se o cronograma não for interrompido, a construção deverá ser finalizada em 2026, ano que marca o centenário de morte de GaudÃ.
O detalhe é que Fauli já é o quarto designado para chefiar o projeto. Ou seja, arquitetos estão dedicando suas vidas ao “edifÃcio” e morrendo antes de ver o final, como no conto de Murilo Rubião. Essa passagem de gerações, o tempo absurdo de construção e a morte de Gaudà ainda não são as únicas coisas estranhas que cercam o templo. Contam que não foram deixadas plantas do projeto final da Sagrada FamÃlia, o que indica que ninguém sabe ao certo como a igreja deverá ficar no final. Os estudiosos pegam as pistas de Gaudà e tentam preencher as lacunas para finalizar a construção.

Para completar a lista de motivos que me levam a crer que Murilo Rubião visitou a Sagrada FamÃlia antes de escrever O EdifÃcio, há a grandiosidade do templo espanhol. O sÃmbolo arquitetônico não está perto de ser “o maior arranha-céu de que se tem notÃcia”, mas posso dizer que a sensação de mediocridade é imediata quando a gente está diante da igreja, e ainda mais quando entra. É difÃcil explicar o sentimento fruto de um conjunto de elementos: as cenas bÃblicas esculpidas em pedra, a história diferente contada em cada canto da construção, os sÃmbolos espalhados por ela, as pilastras enormes, os vitrais coloridos, o teto deslumbrante.
Dá para ter uma ideia nesse vÃdeo de uma projeção mapeada na basÃlica, um desafio que uma empresa de designers topou por ocasião de um festival em Barcelona, no mês de setembro último:
Uma coisa é certa: se esse prazo de fim de construção em 2026 for cumprido e se eu estiver viva, farei o que puder para voltar lá para conferir.
Fotos roubadas de Bel Cabral e Raquel Acioli, companheiras de descobertas junto com Keila Brito <3
























