Foi ótimo ver aqui no A Prancheta que Eduardo Rocha, nosso editor e blogueiro principal, ao passear em sua lua-de-mel se deparou com uma exposição de Takashi Murakami no Palácio de Versailles (chique né?), pois me obrigou a finalmente colocar no papel (?) o post do artista Yoshitomo Nara, um dos caras que mais curto vindos do lado de lá. Nara nasceu em Hirosaki, Japão, em 1959 e possui um trabalho bastante autoral. Claro que todos os trabalhos de artistas acabam por serem autorais mas o caso dele é um pouquinho mais. Nos últimos vinte anos a gente consegue perceber alguns artistas japoneses bastante influenciados pela ocidentalização no Japão. Cada dia mais a cultura do consumo, da música pop e estética ocidental se mesclando com olhares japoneses, criando verdadeiras belezas. Na literatura com Haruki Murakami e Banana Yoshimoto, na música como Shonen Knife, na moda com as produzidas meninas do bairro Harajuku, na arquitetura com os ganhadores do Prêmio Pritzker 2010, Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa. Enfim, tantos bons trabalhos sendo reconhecidos por refinamento e bom equilíbrio de suas origens japonesas e toques ocidentais. Admiro e gosto muito de todos eles.


Voltando ao trabalho de Nara, vemos meninas cabeçudinhas ou adolescentes com expressões às vezes de raiva, às vezes tristes, mostrando uma inquietação própria com algo que não sabemos identificar. Um mal humor ou angústia da humanidade pós-moderna que nos jovens transparece mais facilmente. Os pais de Nara desde muito cedo saíam para trabalhar e deixavam-no em casa sozinho com seus sonhos, ilusões e amigos fictícios, dando vazão para sua criatividade impressa em desenhos e pinturas infantis que perduram até hoje. Ele manteve em seus trabalhos a ingenuidade infantil aliada a expressões adultas. Uma das ilustrações mais famosas é a garotinha bravinha fumando um cigarro. Eu pelo menos vejo nesses trabalhos uma certa reclamação ou protesto do jovem Nara com seus pais que tantas vezes o deixavam só.



Yoshitomo Nara teve formação artística no Kunstakademie Düsseldorf, na Alemanha. Lá o principal contato artístico que teve foi com o expressionismo, movimento que traz à tona o que o artista está sentindo para as telas, mostrando como vê o mundo da sua forma mais interior. Artistas como Kirchner e Munch na arte figurativa e Willem de Kooning e Wassily Kandinsky no abstrato são artistas conhecidos do meio do século passado desta vertente. Em Nara vemos claramente a sua percepção e seus sentimentos traduzidos nas menininhas e cachorros tristes. Claro que nem tudo em seus trabalhos são tristezas e mágoas parentais, mas seu trabalho mais significativo e reconhecido é este, pois nos toca. Outra grande influência de seu trabalho foi a música. O rock e o punk habitam seu atelier e Nara chegou a fazer até uma capa de disco das meninas do Shonen Knife.


Confirmando esta sua constante crítica ao passado solitário, em algumas de suas exposições foram feitas instalações de quartos infantis adornados com ilustrações pelas paredes, brinquedos e lápis de cor e de cera espalhados pelo chão. Em uma delas uma escultura de uma criança sozinha dentro do quarto com uma fantasia de cachorro, intitulada de Sleepless.


Alguns críticos comentavam seu trabalho como influenciado por mangás e animes, acho que meramente por conta das figuras femininas infantis e de olhos grandes. Eu acredito que seu trabalho vai além dessa correlação e que a influência não é tão grande quanto se disse. Por ser japonês e ter uma estética que em alguns trabalhos se assemelha não podemos simplesmente tachar ou avaliar a influência dessa forma. Quando vejo seu trabalho minha primeira impressão não é de um mangá diferente ou sendo esta uma de suas principais referências, mas sim um trabalho original.

Não sei se é uma impressão minha, mas vejo uma proximidade do trabalho de Nara com uma personagem muito conhecida da América do Sul, a Mafalda. Desde muito pequeno meus pais me incentivavam a ler Mafalda e quando fui crescendo, fui percebendo que ela era a “perfeita política”. Mafalda é uma criança por volta de seus 5 anos imersa num mundo infantil e contestadora por natureza. Como foi criada na segunda metade do século XX pelo quadrinista argentino Quino, a personagem contesta a Guerra do Vietnã, políticos em geral, decisões da ONU, interferências no meio ambiente, ao mesmo tempo em que faz birra contra a mãe para não comer, pois odeia sopa. Por isso a considero a “perfeita política”, pois ainda está imaculada à ganância, egoísmo e outros sentimentos que costumamos ver na política. É nesse retrato da ingenuidade livre, pura e boa discutindo temas adultos, que sinto a similaridade entre os artistas. Sei que são duas estéticas bem diferentes, mas parando para pensar, se parecem em aura.

Para este post eu pensei em algo especial. Tenho alguns postais que comprei do Yoshitomo Nara há alguns anos e que usei poucos. Então, já que não temos previsão de nenhuma exposição dele aqui no Brasil, eu vou enviar para as primeiras cinco pessoas que comentarem neste post um postal com alguma obra dele. Infelizmente não consegui scanear os postais, então vão ser na surpresa mesmo!
Depois de comentar basta enviar um e-mail para mim com seu endereço que enviarei o postal em branco num envelope. Assim você pode enviar para alguém se quiser.














adorei as obras dele, são todas incríveis, eu adorei a técnica e o modo como ele adiciona malícia as obras. *-*