“A vaca é um animal amado em todo o mundo. Simplesmente nos faz sorrir. Seu corpo tem formas, ângulos e curvas ideais para servir de tela para um artista.”
Apesar de bastante tendenciosas, é com essas afirmações que a CowParade explica sua existência e se afirma universal. Então a vaca é de todos e pertence a todos os lugares. Bem, talvez simplesmente não pertença a lugar nenhum, mas definitivamente vem sendo consumida por todos.
A CowParade começou em 1999 na cidade de Chicago e em onze anos tornou-se o maior e mais bem sucedido evento público de arte do mundo, tendo passado por mais de 50 cidades, incluindo Nova Iorque, Londres, Tóquio, São Paulo, Cidade do México, Praga, Milão, Istambul, Buenos Aires e Paris. A exposição dura de dois a quatro meses e a média de vacas exibidas vai de 75 a 100, tendo já chegado a 450 em Nova Iorque.

Por onde passa, artistas locais são selecionados para customizá-las em tempo real e após a exibição são comercializadas em leilão. Os artistas submetem um pré-projeto para a organização do evento, que acaba agregando grandes nomes a amadores e iniciantes de várias idades. Dentre os famosos que assinaram vacas estão desde estilistas como Vivienne Westwood e Christian Lacroix ao cineasta David Lynch e a banda Radiohead, passando pelo brasileiro Romero Britto, cuja arte banalizada adequa-se bem ao conceito da parada. Também entre os que arrebatam as vacas em leilão estão nomes famosos como Elton John, Ringo Starr e Oprah Winfrey. Os valores arrecadados são doados para caridade e a maior quantia foi atingida em 2003, quando a vaca assinada pelo designer John Rocha foi vendida por 146 mil dólares na cidade de Dublin.

Apesar de algumas peças serem realmente excepcionais, não se pode dizer de uma maneira geral que as vacas resultantes das exposições sejam grandes obras de arte. Então por que o sucesso e a popularidade da parada? Talvez pela valorização de um conceito muito familiar, mas nem sempre lembrado por quem consome arte: o kitsch. Em sua essência, ele é a própria negação de uma arte superior; é o consumo do inadequado, da cópia de baixo valor, do exagero, da acumulação, do medíocre. Mas na CowParade, o kitsch é a grande arte. E é uma arte-espetáculo exclusiva e muito cara. Ter uma vaca de fibra de vidro pintada na sala de casa é tão inadequado quanto o pinguim de geladeira, mas não tão esdrúxulo quanto as flores de plástico. É o alto kitsch, se algo assim puder existir.

Em sua grande maioria, a população não entende muito de arte e apenas consome o que é pop. A própria Pop Art de Warhol bebeu muito na fonte do kitsch e usou e abusou de seus conceitos com sucesso de público e comercialização. Mas a Pop Art é aclamada entre estudiosos e artistas, o kitsch não. Mesmo assim, é esta arte menor que conquista o povo e consagra artistas como Romero Britto, ainda que muitos torçam o nariz ao ouvir seu nome.
Os organizadores da CowParade não dizem, mas sabem que a parada é a celebração do kitsch e, conscientes do seu gigante potencial comercial, vão ainda mais longe e criam miniaturas colecionáveis de centenas das vacas criadas nas paradas. Por valores que variam entre 50 e 30 dólares é possível ter em casa uma vaca lendo jornal, dançando balé, ou ainda uma vaca faraó do Egito que serve também como porta-joias. E para o consumo dessas não há limites. Aqui o empilhamento é a ordem e quanto maior for a coleção, mais orgulhoso fica o apreciador de arte. Claro que há também, em menor número, os que sabem que estas réplicas não têm grande valor estético, mas as consomem mesmo assim ou justamente por isso. Afinal de contas, o kitsch também é tendência e desde que você tenha plena consciência do que está consumindo e o faça com ironia e deboche, tudo bem. Você não é bobo, você é camp.


*Texto apresentado na disciplina Crítica e Cultura Contemporânea, com a Profa. Dra. Ângela Prysthon, no curso de Pós-Graduação em Jornalismo e Crítica Cultural.














Amei, Edu. Massa demais. E eu adoro as vaquinhas kitsch. hehe.