“Para os cientistas de hoje, descobrir não é mais desvendar algo que estava encoberto na realidade, mas inventar novas relações entre dois conceitos científicos. De fato, se numerosos cientistas se encontram, ao mesmo tempo, em posse de determinados dados, e só alguns (um Einstein, um Fleming) fazem grandes ‘descobertas’, isto ocorre porque só estes foram capazes de inventar novas relações entre esses dados. Nesse sentido, o grande cientista não é um descobridor mas um criador, como o grande artista.”
O trecho é de O Lugar Crítico, artigo de uma das principais críticas literárias do País, Leyla Perrone-Moisés. Escrito em 1978, poderia muito bem ser uma reflexão sobre a comunicação em tempos de pane informacional. Leyla nos lembra que temos um privilégio antes inimaginável, a abundância da informação.
Afinal, a tendência é a gente esquecer que, há duas décadas, para conseguir um dado, era preciso a) encontrar em uma enciclopédia; b) encontrar em um livro; c) perguntar a alguém (oralmente, via telefone ou correios); d) tentar num órgão público; e) tentar numa empresa privada; lembrando que as opções “d” e “e” implicavam em sérios riscos de frustração, um pouco minimizados se você tivesse um contato ou dinheiro para pagar. Qualquer alternativa era mais árdua que alguns cliques na internet.
Hoje é não apenas natural como requisitado que as instituições dos mais diversos setores tenham seus dados à disposição, pesquisas, números, estatísticas, guias. Só uma imaginação sem fronteiras pode visualizar o que é possível fazer com eles. Quem faz a diferença hoje é quem consegue usar criatividade e inteligência para entender os dados e traduzi-los.
É aí que entra o trabalho genial da cientista e designer brasileira Fernanda Viégas, expert em visualização de dados. Ciência que eu não explicaria melhor do que a própria, num artigo escrito para a Super Interessante: “Visualização é isso: o poder de contar histórias e tomar decisões baseando-se em dados. Visualizações fazem com que assuntos complexos se tornem concretos e acessíveis.”
Para extrair o que os dados podem oferecer, é preciso uma mente sem limites. Os projetos de Fernanda resultam em infográficos bem diferentes do que a gente está acostumado a ver por aí, desde a representação até os assuntos. Que tal mapear a curiosidade humana, pela investigação do que as pessoas pesquisam no Google? Com Martin Wattenberg, ela criou o Web Seer (você também pode usar), ferramenta que compara os resultados de buscas para duas frases diferentes. Quanto mais grossa a seta, maior o volume de buscas para o termo.
Outro trabalho foi o Fleshmap, uma exploração do desejo, subdividida em três partes: touch, listen, look. A equipe entrevistou centenas de pessoas para entender as relações entre o corpo e as suas representações verbais e visuais. O cruzamento de dados das zonas erógenas apontadas rendeu um mapa pontilhado dos lugares do corpo onde o toque é melhor recebido.
Lucious é um dos trabalhos mais lúdicos, uma espécie de homenagem aos designers e fotógrafos das principais revistas de moda. Com um algoritmo específico em uma mão e anúncios de marcas luxuosas na outra, Fernanda Viégas consegue liberar as imagens das suas formas e exaltar as cores puras e suas incidências, agrupadas por meio de círculos aleatórios.

Para quem se interessou, vale assistir à palestra da artista no TED x SP 2009, onde ela conta inspirações e motivações.
Dica do Marcel Ayres e da Renata Cerqueira.
















