Esta semana li, em alguma matéria na internet, um caso que já tinha ouvido falar, achado um absurdo e até então não havia procurado mais detalhes. O fato é que em 2007 um artista plástico costarriquenho chamado Guillermo Habacuc Vargas prendeu um cachorro em uma galeria de arte em Manágua, na Nicarágua. O cachorro permaneceu sem comida até chegar a óbito por inanição em frente aos frequentadores da galeria. Na parede estava escrito com ração canina: “És o que lê”. Não sou do tipo moralista, da sociedade protetora dos animais ou do tipo que ama o verde, e por isso parei para pensar sobre o assunto e tentar ver da forma mais calculista possível se eu conseguia perceber um impulso artístico nesse trabalho. A verdade é que não. O que consigo enxergar é um pensamento muito parco, quiçá ignorante de um sujeito completamente imbricado com premissas tão comuns no mercado de arte atualmente, tal como: ideias supostamente novas, necessidade do espetáculo como auto promoção e falta de qualquer técnica artística.


A arte no último século passou por um processo de desconstrução absurdo sempre visando a experimentação e novos caminhos, como instalações, vídeo-arte, automutilação e experimentos científicos. Os limites e as críticas considerados a uma obra são encaradas hoje em dia como reacionários ou conservadores.


Marcel Duchamp em 1917 apresentou um urinol como obra de arte. A obra chamava-se A Fonte. Nunca alguém havia produzido arte, sendo esta um objeto pronto. O que importava era a ideia em torno do objeto. Com isso Duchamp inaugura o termo e tendência na arte chamado ready-made, na qual não é mais necessária a manufatura do objeto pelo artista.



Andy Warhol passa a fazer na década de 1960 arte contendo bens de consumo e elementos da massa, como latas de sopa Campbell e embalagens de sabão em pó Brillo. Ele também produz retratos de figuras conhecidas como Elvis Presley, Marilyn Monroe e John Lennon. Tudo isso com cores saturadas, traços simples, muito parecido com a estética utilizada pela publicidade. O apelo comercial, seus temas e personagens fazem de Warhol uma celebridade dentro e fora do mercado de arte. Eu gosto do trabalho de Warhol, mas sua celebrização criou consequências futuras para o mercado.
Esta total mudança nos parâmetros da produção de arte, fez com que o padrão anterior fosse constantemente negado. O que interessava agora não mais era a obra de arte, mas sim o artista e suas idéias mirabolantes. O crítico não passava de um jornalista a documentar a exposição e não há mais o comentário ornado com análises. Muitos ainda veem o crítico dessa forma atualmente. Nesse sistema onde a arte se traduz pelas ideias e onde a pluralidade é vista em todos os âmbitos, não se pode mais criticar, já que dessa forma está criticando a ideia, e a ideia não é passível de julgamento na pós-modernidade. Estaria sendo limitado e conservador.
Em 2007 Ferreira Gullar foi solicitado a analisar a obra de duas artistas brasileiras, Laura Vinci e Débora Bolsoni. A primeira havia montado uma mesa de mármore em uma galeria onde foram colocadas 7 mil maçãs sobre esta e no chão. A segunda construiu um quebra-molas de paçoca. Eu vou transcrever as palavras de Gullar:
“Essa produção vai morrer aí e nem tem mesmo como sobreviver.(…) Não vai sobrar nada dessa produção contemporânea. Trata-se da arte da boa idéia, da Caninha 51. Este tipo de trabalho não tem artesanato, não tem técnica, não tem linguagem. Já se usou de tudo: balde, bacia, ovo frito. É uma falta de imaginação, uma grande bobagem que não me interessa.(…) Uma mancha no chão, uma água escorrendo, tudo isso é expressão, mas não é arte. Se alguém pisa no meu pé e eu grito de dor, isso é uma expressão, mas não é arte.”

Depois desse comentário, Luciano Trigo, jornalista e crítico de arte, escreveu uma matéria para a Folha de São Paulo explicando alguns dos motivos da arte produzida atualmente, dando exemplos da desconstrução e fazendo comparações das obras a atitudes como a de Duchamp. Seguiram-se réplicas e tréplicas entre as artistas e o crítico. Elas deram suas explicações e do porque escolheram tais elementos e suas subjetivações para composição dos trabalhos. Mas ainda assim discordo das artistas, a arte não deve ser feita de ideias maravilhosas explicadas. Deve transpor o que somos. Dessa forma cria-se linguagem, unidade e solidez.
Há vários outros nomes a se comentar sobre a arte da ideia. Chris Burden, nos anos 70 fez uma performance que consistia num assistente atirar em seu braço. Stelarc, artista envolvido com tecnologias robóticas e com o futurismo, convocou uma coletiva de imprensa para anunciar sua mais nova obra, um implante de orelha no braço esquerdo. Vito Acconci, na obra Canteiro, construiu uma rampa no espaço de toda a galeria e o trabalho era ele ficar se masturbando debaixo da rampa. Ou até Christo Javacheff, famoso por embrulhar grandes construções e ilhas.




É nesse ponto em que quero chegar. Todos temos nossos direitos a expressão. Mas cabe a galeristas, merchands, críticos e público saberem selecionar o que é arte ou não.
Eu não quero ir em uma galeria de arte para ver um cachorro, um gato, um homem ou uma planta morrer por falta de alimento. Esta é minha opinião e o que pretendo é o debate. Aos que concordam e discordam, vamos pensar, analisar e trocar.
Até a próxima!














Longe de mim defender o cenário atual de arte contemporânea, mas normalmente há um certo conceito por trás dos artistas que ganham notoriedade. Se não me engano, o caso do cachorro foi um protesto contra a passividade da população em relação a prisioneiros que passavam fome. As pessoas ignoravam um ser humano e se compadeciam de um animal. Daí a isso ser arte, é outra discussão.