Em fevereiro deste ano tive a oportunidade de ver o trabalho de um jovem artista brasileiro de 33 anos muitíssimo ovacionado atualmente e que recentemente, descobri que estaria presente no festival “No Ar Coquetel Molotov”. Fiquei muito feliz pela iniciativa do coletivo Coquetel em trazer um artista plástico para participar de um festival de música, mas principalmente por ser Stephan Doitschinoff, também conhecido como Calma.

Todos que ouvem esse nome e não o conhecem, logo pensam ser um artista europeu e não fazem idéia da brasilidade imbricada em seu trabalho. Sempre carregado de significações sobre religiosidade, folclore, africanismo e suas máscaras, morte e tempo, Calma traduz sua visão desses temas em linguagem única repleta de referências street, pichação, lowbrow e muito marcada por grafismos. Não há a abstração direta, mas sim um conjunto de representações figurativas compondo um quadro do impossível, mágico e místico.



Em seus trabalhos podem-se notar influências de festas folclóricas como o Reisado e o São João, estórias populares e também acredito eu, um pouco da estética religiosa mexicana em suas caveiras.

Stephan é filho de pastor evangélico, neto de espíritas, teve contato com centro Hare Krishna e de umbanda, tudo isto dentro de um país considerado predominantemente católico, o Brasil. O conhecimento por diferentes doutrinas religiosas e pela filosofia sempre foi de seu interesse (e não havia como negar, vale-se dizer!).
Nos anos 90 trabalhou em São Paulo fazendo posters de shows e camisas para bandas de hardcore além de ser assistente do cenógrafo Zé Carratú, conhecido pelos cenários de shows de rock da cidade. Dois anos se passam e Stephan vai trabalhar numa agência de publicidade onde chega a ser promovido, mas pediu demissão pouco tempo depois afirmando que no momento: “não sabia o que queria, mas sabia o que não queria”. Doitschinoff não queria focar seu trabalho estritamente pensando em produtos para clientes, mas conseguir trabalhar e sobreviver através de sua expressão artística. Seus trabalhos como “ilustrador de mercado” e como artista são bem diferentes segundo ele (não consegui localizar nenhum do tempo de ilustrador).



Em 2006, Calma teve sua iniciativa mais célebre. Teve a idéia de pintar uma cidade inteira. Sua irmã morava no interior da Bahia na ocasião a e cidade escolhida foi Lençóis. Começou pintando o exterior de algumas casas e pouco tempo depois a força e a beleza de seu trabalho se encarregou de alastrar a vontade nos moradores para ter suas residências pintadas. Acredito ser nessa bateria de trabalhos a grande significação de seu trabalho como street. Ele pinta em fachadas caindo aos pedaços, é ajudado por artesãos locais ou mesmo pelos moradores, pinta lápides e chega até a mudar a cara da capela do cemitério, respeitando o público, como ele mesmo diz, não utilizando ali as ironias que normalmente transparecem em suas pinturas. A cidade e seus personagens atuando com o artista


Stephan Doitschinoff firma-se no cenário mundial como grande expoente por produzir linguagem artística inovadora com delicadeza, força e respeito. Conseguir bons comentários de grandes galeristas e críticos d’uma arte vinda das ruas é um grande feito e de imenso mérito. Eu gostaria muito de ter nem que fosse uma mínima imagem do Calma na minha sala.


















Desde que soube que o Calma pintou Lençois minha vontade de voltar àquele lugar só tem aumentado. Quando eu for lá trago uma parede para vc pendurar na tua sala. :)