
O quadro O Grito (The Scream), de Edvard Munch, é uma das melhores obras de arte que conheço. Simplesmente porque a pessoa pode entender bulhufas de arte, mas ela vai olhar para ele e vai perceber ali a tinta transformada em angústia e dor na tela. É batata, diria Nelson Rodrigues. É absolutamente importante que o que é arte seja algo repensado constantemente, um campo aberto de discussões, mas não acredito no tipo que só transmite algo com tecla SAP. E segundo declaração do próprio Munch, a visão dele era bem por aí:
“We want more than a mere photograph of nature. We do not want to paint pretty pictures to be hung on drawing-room walls. We want to create, or at least lay the foundations of, an art that gives something to humanity. An art that arrests and engages. An art created of one’s innermost heart.” (E.M.)
Lógico que a obra de 1893, que até hoje é impactante, não custou barato para o artista norueguês. É fruto de uma mente atormentada. Munch ainda criança viu a mãe e uma irmã morrerem, precisou se afastar de um pai rígido para explorar sua arte e sofreu com o diagnóstico de doença mental da outra irmã. O Grito tem como protagonista um ser andrógino e com aspecto doentio, que exala pavor debaixo de um céu vermelho. A sinuosidade presente em quase toda a cena é uma espécie de eco desse desespero.
Reproduzida ao extremo, a pintura se tornou parte da cultura pop, e com tanta banalização parecia improvável que uma animação conseguisse captar a complexidade angustiante que a gente encontra na tela. Mas o Sebastian Cosor se inspirou nas palavras do artista e conseguiu:
“I was walking along a path with two friends – the sun was setting – suddenly the sky turned blood red – I paused, feeling exhausted, and leaned on the fence – there was blood and tongues of fire above the blue-black fjord and the city – my friends walked on, and I stood there trembling with anxiety – and I sensed an infinite scream passing through nature.”
O filme, que vi no Brainstorm9, recria a atmosfera do quadro ao som da música The Great Gig in the Sky, do Pink Floyd. Ficou perfeito. São três minutos que, 119 anos depois, conseguem acrescentar à criação de Munch.
Tudo bem que depois o Cosor começou a avacalhar e fez uma versão “inverno” da animação, mas isso a gente deixa pra lá.














Achei incrível o fato do Grito, um de meus quadros favoritos, ter virado uma animação ao som de Pink Floyd, minha banda favorita, e ainda mais com The Great Gig in The Sky. Mas achei a dança muito avacalhada. O vídeo começa sublime e vira meio comédia. Eu não teria ido por aí.
Uma curiosidade interessante pra quem não é muito fã de Pink Floyd: tudo o que é dito no início pelo cara que exala fumaça, faz é declamado na própria gravação original do álbum Dark Side of The Moon. E é simplesmente foda.
“And I am not frightened of dying. Any time will do, I don’t mind. Why should I be frightened of dying? There’s no reason for it — you’ve got to go sometime.”