
Lulina nasceu no Recife, cresceu em Olinda, voltou pro Recife e foi parar em São Paulo há uns 7 anos. Começou a escrever poemas na adolescência e comprando revistas de violão acabou musicando alguns. Foi o inÃcio de uma carreira que já dura 9 anos e tem um caminho nada convencional. Com discos caseiros distribuÃdos gratuitamente para amigos ou quem quisesse, ela conquistou vários fãs e um contrato com a gravadora YB. Dessa nova parceria saiu o Cristalina, seu primeiro álbum em estúdio, com um som “limpo”, longe dos ruÃdos e da voz baixa dos caseirinhos. O projeto gráfico e as ilustrações do disco ficaram incrÃveis e são de Juliana Pontual.

Aproveitei minha semana em São Paulo para conferir o novo show no Studio SP e não parei de me mexer a noite toda. Nos encontramos, então, para uma cervejinha e um bate-papo na casa de Leo, o Monstro, parceiro de composição que fez parte de todas as formações da banda (os Pnins, os Causadores e agora sem nome). Entre outros amigos de Lulina que chegavam sem parar, estava Dani Arrais (Don´t Touch My Moleskine), que fez lindas fotos em preto e branco durante a entrevista. As outras são minhas mesmo.


Depois de 9 anos e 8 discos caseiros, chegou o Cristalina, em estúdio e com gravadora por trás de tudo. Tem até música na trilha do seriado Alice, da HBO. Esse é o inÃcio de uma nova fase e o fim dos registros caseiros?
Não. Eu vou continuar gravando discos em casa porque isso é a essência da coisa. Cristalina já é uma compilação dessas realizações caseiras. É o meu jeito de compor e eu gosto de gravar assim, sabe? Com Leo ou, às vezes, sozinha em casa. Se rolar outro disco de estúdio provavelmente vai ser de novo uma compilação de caseiros. Não pretendo entrar no estúdio do zero, mas nunca se sabe.
O disco é um convite à Lulilândia, um mundo cheio de ets e cercado pelo número 13. A Lulina desse universo é a mesma Luciana Lins que trabalha com publicidade ou você criou uma personagem para expressar sua arte?
Lulina é a minha manifestação musical. Não é uma personagem, é uma parte grande de mim. É o lado que se expressa através da música. Mas tudo que eu componho é realmente sobre minha personalidade e sobre as coisas que eu vivo. Luciana Lins é o lado mais real, mas que também engloba Lulina e outras coisas, como trabalhar com publicidade e tomar cerveja com os amigos, que é um momento em que eu também não tô cantando. Luciana Lins é a mãe de Lulina, digamos assim.
É possÃvel dedicar-se à carreira musical e ser uma redatora na correria de São Paulo?
Está sendo a coisa mais difÃcil da minha vida, eu confesso. Desde que vim trabalhar em São Paulo, eu já tinha paralelamente essa carreira musical, sem problemas. Consegui lidar sempre porque marco viagens ou shows nos fins de semana. Só que como agora saiu meu primeiro disco oficial, a demanda tá um pouco maior. O mais difÃcil de conciliar é o cansaço, porque ultimamente eu também tenho trabalhado muito nos fins de semana. Tô sendo muito requisitada pelos dois lados. Mas esse é o momento pós-lançamento do Cristalina. Acho que as coisas vão acalmar daqui a pouco. Já passei por fases aqui em que a música tava bombando, com muitos shows, mas depois dá uma acalmada. É normal esse ciclo. Por isso não me sinto ainda na obrigação de escolher. Eu sempre tive várias coisas ao mesmo tempo, é o meu jeito de viver. Se eu tivesse que parar um dos dois, provavelmente arrumaria outra ocupação. Acho que eu iria escrever, fazer literatura para equilibrar. É legal ter um foco, onde você coloca seu objetivo profissional, e um escape, onde você coloca o subjetivo e o emocional. Isso faz com que eu não leve tensão pro lado musical e nem muita emoção pra publicidade. Eu faço bem direitinho o que cada um pede.

Você já escreveu livros e ilustra muito bem. Isso tem relação com sua carreira musical ou já é outra expressão que não tem nada a ver?
Calma, eu não sou várias pessoas em uma! (risos) Então, eu acho que só vocês acham que desenho bem. Vocês são bonzinhos e me estimulam, pedem desenhos e aà eu faço. Mas eu comecei com isso, a minha primeira atividade artÃstica, com uns 3 ou 4 anos, era desenhar. Eu desenhava muito bem, fazia cursos de pintura com artistas de Olinda, e isso durou até uns 6 ou 7 anos, quando eu comecei a gostar de escrever. Mas acho que é tudo misturado mesmo. Tanto que as primeiras músicas eram poemas que fiz com 15 anos e aà comecei a musicar. É tudo a mesma coisa, “Lulina” é só um apelido. Meus amigos reclamaram porque eu escrevi o Livro das Lamúrias e assinei “Luciana Lins”. E realmente não sei muito bem o porquê, mas acho que Lulina é muito musical pra mim. Tá tudo envolvido mas eu tenho muitos amigos talentosos, como Ju, então não vou me arriscar a desenhar minhas capas. Peço pra ela. Mas adoro desenhar também.
Suas músicas são muito pessoais e parecem sempre relacionadas a experiências pessoais. Como funcionam as parcerias na hora de compor? Você acha que tem menos de você quando vê o resultado final?
Acho que não. Eu adoro fazer parceria porque normalmente elas surgem como resultado de um ambiente. É muito verdadeiro e mistura o que eu sou, o que a outra pessoa é, e o que a gente tá vivendo naquele momento. Eu nunca parei pra Leo e falei “vamos compor agora ou daqui a uma semana”. Sempre rolou em casa, tomando uma cerveja e aà surge um papo sobre, sei lá, réveillon, que é uma coisa tão deprê. E lá em Recife sempre toca frevo! Aà eu pego o violão e começo “o ano acabou…”. A parceria não tira de mim, me estimula a outros raciocÃnios. É uma troca que eu adoro.


Seu jeitinho meigo e estranho de cantar suas próprias músicas acabou se tornando uma caracterÃstica marcante nos seus discos e shows. Você pretende gravar outros compositores ou o mais importante pra você é mesmo compor?
Eu não sei se eu gravaria outros compositores, não me sinto cantora. Acho que pra isso você tem que se garantir e eu não tenho uma formação musical. É mais por insegurança, apesar de eu adorar. Recentemente me chamaram para participar de um projeto pra cantar Tom Zé. Eu amei porque cantei com o coração. Eu amo Tom Zé e adoro as composições, mas não me considero uma intérprete da música popular brasileira. Eu tenho medo de dizerem “estragou a música do cara”. Tem que ter uma puta responsabilidade. Teve uma época em que eu fiz um projeto de samba e cantava Ataulfo Alves, Billy Blanco, e que eu adorei fazer e deu tudo certo, mas ficava mais nervosa do que quando cantava minhas músicas. O legal de cantar as suas composições é que a responsa é só tua. Tudo bem se você embolar a letra e errar, como aconteceu no Studio SP, que eu esqueci a letra da minha música mais antiga, que tem 9 anos. Você pode porque não vai estar magoando ninguém, só você mesma, se fizer besteira. Então eu gravaria, mas com medo.
Quem você gostaria que gravasse uma música sua?
Lulina: Tanta gente! Eu queria que Ultraje a Rigor gravasse Balada do Paulista. Queria que Alcione gravasse alguma coisa, né Monstro? Quem a gente queria que gravasse as músicas? Maria Bethânia, Meu PrÃncipe?
Leo/Monstro: Não, Marrom! A gente tinha pensado na Marrom.
Lulina: Qualquer pessoa que gravasse eu já ia achar massa. E se for essa galera, tipo Marrom, ia ser ideal.

Quais as 13 coisas que te deixam mais feliz?
Tomar cerveja com os amigos me deixa muito feliz; praia: eu acho uma vibe massa, apesar de ir pouco; tocar ao vivo com a banda; compor: eu boto pra fora os aperreios; pão quentinho, que acabou de sair da padaria, com manteiga derretendo; dormir sem alarme; comidinha de mainha: todo ano a trago pra cá e rola o Bethânia Fest, em que ela cozinha pra todos os amigos e é maravilhoso; escrever meus contos e minhas coisas que não mostro a ninguém; ouvir música: fone de ouvido o tempo todo; viajar com amigos; feriados; estar apaixonada; e conhecer pessoas interessantes.
E o que te tira do sério?
Presenciar uma cena de desrespeito. Aqui em São Paulo rola muito das pessoas se sentirem superiores porque tá num cargo maior. E outra coisa que me tira do sério é mau-caratismo. Perceber que uma pessoa é mau-caráter e que manipula as pessoas pra conseguir alguma coisa já fez subir muito meu sangue. Mas hoje tento me afastar dessas pessoas e ajudar quem puder a não se envolver com aquilo.

O que você andou ouvindo nos últimos dias?
Eu tô ouvindo bastante o último disco do Yo La Tengo.
Você tem algum vÃcio ou mania?
Eu tinha a mania do 13, procurando em todas as coisas e o via me perseguindo, mas não tenho mais. Acho que ter lançado o Aceitação do 14 no ano passado ajudou. E o Cristalina tem 18 músicas. Tava na hora de mudar pra não chegar a ser um Zagalo algum dia. Não ia ser legal pra mim. Mas não tenho mais nenhuma mania não.
Depois de passar por Recife, Olinda e São Paulo, você sente que pertence a algum lugar?
Pernambuco é minha raiz, é a casa da minha mãe. Mas minha casa é São Paulo. Eu sinto muita saudade de Recife porque tem o aconchego da famÃlia e é de lá que eu sou, mas quando eu tô lá sinto saudade do caos daqui. A minha vida é aqui. É como sair da casa da mãe. Eu escolhi esse lugar para crescer, mas sou dos dois e até de um terceiro, se pintar a oportunidade de morar em outro canto. Mas a raiz é lá e se tiver qualquer aperreio, é pra lá que vou correndo.
Qual o próximo passo de Lulina pós-Cristalina?
O que a gente quer agora é fazer bastante shows, tentar uma turnê pelo Brasil, pra divulgar o disco e nos divertirmos um pouquinho. Vou continuar gravando caseiramente. Já tenho umas 10 composições novas que vou começar a gravar com Monstro em dezembro. Era pra lançar em dezembro mesmo, mas não sei se vai dar tempo. Além de gravar em casa, mais pra frente vou continuar gravando na YB. A gente gravou mais 2 músicas, que não estão no Cristalina, para um especial de 10 anos da gravadora e essas 2 vão passar na MTV e em vários cantos. E envolver amigos em projetos divertivos, como clipe, curtas, nada muito planejado. É deixar levar e ver pra onde vai.


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www.lulilandia.wordpress.com