Os parentes chegam bem vestidos ao apartamento aceso da orla. A noite de natal na casa dos Andrade é um grande evento graças ao avô Tarcísio e sua convicção de que reunir a família ao menos uma vez por ano é imprescindível. Os cinco filhos, já crescidos, junto às preocupações do trabalho, trazem os netinhos, verdadeira alegria do patriarca. Gosta de sentar-se com seu uísque e observar àqueles que começam a vida tão tarde. Afundado na cadeira, com os sentidos aguçados pelo álcool, sente o cheiro de vento salgado trazido pelo mar e ouve barulho das ondas ao fundo.
Gabriel puxa a calça com pregas do pai e pergunta quando abrirão os presentes. “Pergunte ao vovô”. Gabriel não pergunta. Só se sente confortável com os pais. O especial interesse do menino, além do fato de criança gostar de presente, é o novo videogame que o espera. Gabriel fita o embrulho vermelho. Há semanas está ali guardadinho na árvore; todo dia cheira o papel, sente o volume, degusta aos poucos a felicidade vindoura.
Os antigos brinquedos perderam o encanto. Gabriel resolve sentar-se na cadeirinha de palha do canto da sala na esperança de detectar alguma iniciativa em relação aos presentes. Mas tudo que consegue perceber é a candura das pessoas quando movidas por álcool; riem, se abraçam, contam verdades, contam mentiras, contam o que lhes vem à cabeça. A realidade se dilui nas histórias e na candura. A dureza da vida já não está. Seus tios sérios, suas tias bravas, já não são sérios, já não são bravas. Gabriel possui lucidez suficiente para saber que em pouco tempo tudo voltará a ser como antes, com hora de dormir, hora de acordar; mas hoje a vida existe e é excitante, é nova, é um embrulho vermelho de natal.
Os primos logo o interrogam: “e aí perguntou”; “não disseram nada”, responde Gabriel, saindo-se. Sem perceber o desânimo do garoto, os primos tencionam garantir o lugar na jogatina: “Ei Gabriel depois de tu deixa eu jogar primeiro” falou Henrique; “ei ei eu te emprestei a bola outro dia lembra” retruca Alex, na esperança de ser o segundo; “pô vamo tirar na sorte é mais justo”, diz finalmente Daniel, sabendo que não lhe restam argumentos favoráveis para vencer a disputa. O senso de justiça inato às crianças opta por tirar na sorte: Gabriel, Alex, Daniel e Henrique é a ordem final escolhida ao acaso. Quando os outros se afastam, Henrique cochicha no ouvido de Gabriel: “ei amanhã peço pra mainha vir me deixar aqui pra gente jogar” e fez um gesto de cumplicidade com o olho e um sinal com o polegar.
Gabriel volta à sua cadeirinha de palha acanhada, vigilante dos presentes. O soninho chega. É tarde. As luzes amarelas do apartamento começam a perder o foco; os ruídos e as vozes se misturam, tornam-se ecos da consciência em vigília. Gabriel dorme. Dorme como o soldado que já não se importa mais, que já chegou ao limite da resistência. Os parentes passam e dizem: “eita dormiu ta cansadinho”. Tarcísio, tendo espreitado a noite toda a tristeza do menino, levanta-se como o velho touro que é, caminha firmemente em sua direção, chacoalha-o pelos ombros e diz: “não quer mais o presente não?”. Gabriel levanta-se de supetão, provocando risos. Atordoado, busca o embrulho vermelho. Ajoelha-se ao pé da árvore, rasga-o furiosamente, como os embrulhos devem ser rasgados. MEGA DRIVE II – diz a caixa vermelha e preta. Isopor, manuais, videogame, jostick e uma camisa com o Sonic, o notório ouriço azul. Aproxima o brinquedo do rosto e sente o cheiro que iria lhe acompanhar o resto da vida: o cheiro do passado que não volta – “eu sou o segundo a jogar no Mega hein!” – lembra Alex o privilégio conquistado na sorte. Gabriel concorda; concorda com os primos por compartilharem a felicidade com ele, concorda com o avô por tê-lo lembrado de ser feliz, concorda que o mundo está no lugar certo e que ele tem seu lugar no mundo.

Vicente Quintas é proustiano, misantropo, consumidor de aerossol e paraquedista (o último lugar que aterrissou foi o curso de direito).










