
Tava tudo combinado. E o combinado era que, para driblar a negativa dos meus pais em relação a ter outro cachorro em casa, porque dá muito trabalho, porque a perda do anterior tinha sido muito traumática pra todo mundo e blábláblá, você chegaria de repente.
E assim você chegou, em forma de crime premeditado e presente de amigos muito queridos, David e Vanessa, que deixaram uma cestinha na nossa porta com uma bolinha peluda dentro e um bilhetinho que dizia apenas : “Oi, meu nome é Keiko, preciso de um lar, podem cuidar de mim?”.
Eu e minhas irmãs, Claudinha e Celinha, caprichamos na cara de surpresa. Esse, sim, o maior teatro ao ar livre do mundo. Meus pais, claro, chiaram, mas logo se renderam àquela coisinha fofa que cabia numa mão, andava rebolando e tinha o olhar mais indefeso e doce do mundo.
Agora, Keiko, 12 anos depois, isso de você ir embora no dia de Natal, não tava combinado. O combinado era que o povo da família iria chegando para a ceia e você iria recebendo um a um com cem milhões de latidos e criando a mesma farra e confusão de sempre. O certo era que você saltaria do chão para o sofá, do sofá para o colo de alguém e do colo de alguém para perseguir alguma tia carregando um prato de comida quentinha e cheirosa pela casa. Aí, no meio do caminho, as crianças iriam te chamar pra brincar e você toparia na hora, toda feliz, mesmo imaginando que logo em seguida uma delas fosse puxar o seu rabo. Então você teria um pouquinho de paciência, mas na terceira investida você morderia o calcanhar de quem estivesse pela frente e alguém teria uma ideia genial: “Prende Keiko!”. E isso duraria cinco minutos, quando você estaria de novo no meio da fuzarca, causando o maior rebu, enquanto Mainha perguntaria, ensandecida: “ Ai, meu deus, quem soltou Keiko?”. E eu ficaria ali, rindo em silêncio, só pra mim, da própria trela, enquanto mexeria qualquer coisa no fogão. Mas aí tudo saiu diferente do combinado.
Eu até sabia que você poderia ir embora a qualquer momento, pois Dra. Carol, aquela anja, já tinha feito tudo que podia fazer por você esses anos todos, da melhor forma possível. Mas eu não esperava que fosse agora. Tão já. Logo hoje, que tinha festa. Bem na hora em que eu tinha saído, sem que eu pudesse me despedir, sei lá, dizer, desculpa, Keiko, por ter te atropelado no corredor tantas vezes sem querer enquanto tava apressada pra lá e pra cá. Desculpa, Keiko, pelos dias em que eu esqueci de passear com você. Foi mal, Keiko, por ficar colocando lacinho no seu pêlo e também por ser contra te dar comida da mesa.
Mas, tudo bem, né? Você nunca ia dizer desculpa mesmo e eu sempre te perdoei por ter roubado o galeto do meu prato, deitado em cima do meu vestido branco que tava passado em cima da cama, feito xixi no lugar errado, derrubado a lata de lixo pela milésima vez e inventado de ter filhote justo na noite da formatura de Lu e Aninha. Eu sei, tá tudo certo, a gente não precisava mesmo dizer nada, porque entre grandes amigos há uma certeza de afeto tão grande que dispensa qualquer mimimi.
Mesmo assim, eu queria dizer, assim, mesmo sem ser preciso e sem saber se você vai escutar, brigada por ter me alegrado tantas vezes com a sua presença, de tantas formas. Pulando feito cabrito quando eu chegava. Indo pegar a bolinha e trazendo de volta. Me enchendo daquela lambida babada no joelho. Correndo comigo pela praia igual a abertura de novela de Manoel Carlos.
Brigada por ter colocado os ladrões que entraram no apartamento pra correr. Brigada por me fazer companhia, caminhando comigo nas ruas onde eu cresci ou deitada na minha barriga diariamente enquanto eu lia o jornal. Brigada, tá, por sempre ter ficado perto quando eu tava triste ou doente ou cansada ou vendo tv ou cantando para o mais novo neném da casa dormir.
Corta para alguém mal-humorado dizendo: “Mas que drama, é só um bicho!”. Pois é, mas tem bicho que é mais gente do que muita gente. Tem bicho que é muito, muito incrível.
Uma vez eu cheguei com o meu carro novo e gritei da garagem: “Painho, vem ver!”. E ele apareceu na varanda, dizendo: “Vinha, Keiko já tava lá na porta te esperando, outra vez, antes de você chegar. Tá vendo, não era porque ela conhecia o barulho do seu carro”.
Acho que esse amor todo, Keiko, era simplesmente porque você me conhecia. E conseguia de alguma forma muito louca, mas muito real, ler a minha alma e a de todo mundo de quem você gostava e que gostava de você.
Mas, e agora, Keiko, como é que vai ser? Como é que vai ser sem você pra me acordar de manhã e ficar fazendo barulho mexendo com a pata o seu pratinho de comida no chão? Como é que vai ser se eu não lembro direito exatamente o que foi que o menino de Frankenweenie, aquele filme lindo de Tim Burton, fez pra trazer o cachorrinho dele de volta? Como é que vai ser, Keiko, quando eu brincar de morder o pé de chulé de Davi (outro Davi, meu sobrinho), de Filipe ou de Samuca, eles acharem que eu tô te imitando e falarem como sempre, entre gargalhadas: “Ai, Keiko!”. E depois: “Cadê Keiko?”. O que é que eu vou dizer? Como é que eu vou explicar? Acho que eu vou falar só o básico: Keiko foi para o céu. Embora eu saiba que você ainda tá bem viva aqui. Aqui dentro.
Foto: Sparky, personagem de Frankenweenie, de Tim Burton.





Flavinha Marques é redatora, mochileira, pisciana, rubro-negra e ambiciosa. Nasceu em Pernambuco, mas sonha em ser dançarina no Pará.













